Filólogo e arabista. Formado em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa (1939), onde foi discípulo do arabista David Lopes, é também formado em Ciências Pedagógicas pela Universidade de Coimbra (1948). Assistente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1942-1943), funções que a seu pedido deixou de exercer, foi professor do ensino técnico a partir de 1949 e, desde antes mesmo de formado, membro da Comissão de Redacção do Vocabulário e do Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (1938-1940). A sua carreira de arabista inicia-se em 1939, com a publicação de Alguns Vocábulos de Origem Arábica, e reafirma-se logo no ano seguinte com a tese de licenciatura, Comentários a Alguns Arabismos do "Dicionário" de Nascentes. Como filólogo, o seu primeiro trabalho, Curiosidades Filológicas, data de 1940, seguindo-se-lhe, em 1942, O Português do Brasil. Historiador, bibliógrafo, publica os seus primeiros trabalhos nessas áreas respectivamente em 1940 e 1941. Como dicionarista, revelar-se-ia um dos maiores da língua portuguesa, logo quando subscreveu a 10ª edição, em 12 vols., 1948-1959, do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de António Morais Silva. Nesta obra, de que António Pedro seria a um tempo editor e mecenas, José Pedro Machado teve a colaboração de Augusto Moreno e Cardoso Júnior, mas é ao seu paciente labor que se deve um tal monumento ainda hoje inultrapassado. José Pedro Machado editou o Cancioneiro de Évora (1951) e, de colaboração com sua esposa, Elsa Paxeco, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional, em 8 vols. (1949-1964). Publicou ainda a Bibliografia de David Lopes (1967) e, em 3 vols., os Dispersos de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1969-1972). A sua bibliografia ultrapassa a centena de títulos, não contando com as mais de seis centenas de crónicas em jornais, revistas e boletins diversos.
O texto aqui colocado é uma cópia integral da notícia disponível em http://www.e-cultura.pt/DestaquesDisplay.aspx?ID=237 .
Desde já o nosso agradecimento ao Professor Doutor Carvalho Homem pelo atento aviso, ficando desde já prometido um post em homenagem a Angel Barrios García, com referência à sua produção académica.
quinta-feira, agosto 04, 2005
quinta-feira, julho 28, 2005
quinta-feira, junho 23, 2005
Mesa Redonda sobre Bolonha - 22.06.2005
Na sequência da ausência generalizada dos alunos da licenciatura de História, na mesa redonda realizada na "nossa casa" em 22.06.2005, vimos por este meio colocar à disposição de eventuais interessados, a comunicação do nosso representante naquele dia. Esperamos que a temática em questão possa ser enriquecida com os vossos contríbutos.
O Licenciado em História : um condenado à docência ?
Falar de empregabilidade na área da História poderá parecer ousado ou, até, utópico, sobretudo numa atmosfera cultural marcada pela imagem mental do licenciado em História a desempenhar, quase exclusivamente, funções docentes. No entanto, não partilhamos desta ideia profusamente disseminada na nossa comunidade e acreditamos demasiado nas capacidades do licenciado em História – quando aplicado e dedicado ao seu curso – para lhe atribuir papel tão restritivo no panorama profissional português.
O nosso objectivo fundamental é o de sensibilizar todos os agentes universitários e a sociedade em geral, para o imenso manancial de possibilidades de trabalho e de investigação que a História abre em seu redor e cuja exploração – num país com o passado riquíssimo como o nosso – pode ser um factor de animação cultural do país e uma boa solução para combater a tão apregoada crise. Mais adiante propomos um plano de prioridades para o desenvolvimento da consciência histórica na vida cultural e no tecido empresarial português, que consideramos ser praticável, caso haja investimento público, mas, sobretudo, privado.
As competências do licenciado
Como é sabido, as competências tradicionalmente ligadas ao licenciado em História prendem-se, segundo a Reforma Curricular de 2001 do Ministério da Educação, com três domínios distintos :
- domínio da informação / utilização de fontes históricas
- compreensão histórica (nomeadamente temporalidade e espacialidade)
- comunicação em história
Para além destes, o documento desenvolve mais algumas características, aliás já conhecidas do grande público e esgrimidas, frequentemente, em debates da especialidade :
- capacidade invulgar de gestão da informação
- raciocínio metódico e organizado
- invulgar capacidade de compreensão da diferença
- cultura geral diversificada e grande dinamismo intelectual
Com todo o respeito que o documento ministerial nos merece, ousamos apontar mais alguns aspectos que nos parecem importantes na formação do licenciado em História e que, doravante, deverão ser tidos em conta, antes de mais, pela sociedade (dita do conhecimento) e, só depois, pelo mercado de trabalho. Este esforço será tanto melhor sucedido, quanto menor for o número de vagas para os cursos em História. Esta redução de vagas irá permitir, aliás, dois feitos que, de outra forma, dificilmente seriam atingidos – primeiramente, uma aposta na qualidade, que contemplará necessariamente a justa compensação do aluno aplicado e trabalhador (e põe termo à mercantilização do canudo, que abriu a licenciatura em História indiscriminadamente a alunos muitos deles pouco interessados na disciplina e muito mais sedentos de obterem o título de licenciado) e, por outro lado, um relativo controlo do número de licenciados e a garantia que o mercado de trabalho não ficará saturado. E esta, meus caros amigos, é uma condição essencial para a sustentabilidade do emprego em História e, mais ainda, para a dignificação da imagem externa da Universidade, que, actualmente, perante semelhante boom de vagas, pode ser encarada pela sociedade portuguesa como uma fábrica de canudos, o que em nada a dignifica.
Pensar a empregabilidade em História
Realizou-se recentemente na cidade de Coimbra o I Encontro Nacional de Estudantes de História[1] – dias 15 a 17 de Abril, em que esta e outras questões relacionadas com o futuro da História foram amplamente debatidas. Uma das ideias dominantes no painel relativo a saídas profissionais foi, necessariamente, a superação da tensão licenciado em história só pode ser professor.
Em primeiro lugar, há que colocar algumas perguntas a todos os licenciados e a todos os docentes – que competências julgam ter adquirido no decorrer da sua licenciatura e em que medida essas competências podem ser úteis à vida quotidiana ? a História é um mero saber teórico, ou tem alguma aplicabilidade na vida prática ? que espaço deve ser dado aos alunos interessados em colaborar em projectos de investigação alargados ?
Num segundo momento, será importante alertar a comunidade historiográfica e todos os cultores da História, quer façam dela sua forma de vida, ou não, para alternativas que se sobreponham à tradicional vocação forçada do licenciado – o ensino e o desempenho de funções docentes. Neste sentido, propomos um plano alargado de divulgação das potencialidades científicas e quotidianas da História, que passaremos a apresentar, e que mereceu aturada reflexão junto de alguns colegas que actualmente frequentam o 3º ano da Licenciatura nesta casa. É um plano ambicioso, mas que pensamos estar ao nosso alcance, tendo em consideração as potencialidades históricas naturais do nosso país, uma indústria futura a ter em conta para o desenvolvimento da economia nacional, tal como o turismo e o património histórico-cultural.
A História e as TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação)
Numa sociedade em rede, a informática desempenha um papel crucial na actualização e preservação do conhecimento, bem como na sua transmissão em formatos alargados e globais. Ora, como qualquer outra ciência, a História não deve menosprezar o papel divulgador e massificado das TIC e deve procurar fazer bom uso de computadores, leitores de DVD, projectores multimédia, etc ...
Pensamos ser imperioso apostar na criação de uma Associação Nacional de Historiadores Portugueses – já que uma Ordem assusta os mais temerários ... – que congregasse projectos comuns dos diversos cultores da História, contra elitismos e a noção de Historiadores de primeira ou de segunda. Esta associação – que contaria com um pagamento de quotas anual, por parte dos seus associados, para além de outros patrocínios de instituições privadas e do usufruto de descontos na Rede Portuguesa de Museus, etc ... mas igualmente com a distribuição de uma publicação que divulgasse as actividades da associação – criaria projectos para a realização de documentários e mesas redondas em estações de televisão de sinal aberto ou de cabo – como os 4 canais abertos, ou ainda (e sobretudo) o Canal de História, o Canal RTP Memória, entre outros, mais vocacionados para a componente temática da História.
Esta ideia podia impulsionar a criação de grupos de trabalho e mesmo de empresas dedicadas à produção de documentários, reunindo especialistas em audiovisuais, em efeitos especiais e, necessariamente, empregando licenciados em História que, com o domínio do seu saber científico especializado, fossem os consultores dos documentários e garantissem a sua fidedignidade. Temas de História de Portugal, Biografias Régias – porque não dirigidas pelos autores do Círculo de Leitores, reconhecidos académicos de elevado prestígio, Estudos de História Regional e Local, etc ... Este poderia ser um primeiro e importante passo.
Mas falar das TIC, é não esquecer o domínio avassalador exercido pela Internet nos nossos dias e o papel que Historiadores e divulgadores da História têm na criação de páginas tão consultadas e badaladas como o excelente Portal da História[2], sites pessoais e institucionais como o da Academia Portuguesa de História[3], das diversas Faculdades de Letras e respectivos Institutos e Departamentos de História. A futura Associação dos Historiadores Portugueses deveria, entre outras responsabilidades, criar um site que colocasse toda a comunidade histórica e historiográfica em rede, promovendo um debate alargado de todos os agentes produtores e cultores da História, informações pessoais e curriculum`s vitae de cada um dos seus membros, com indicação dos interesses pessoais de investigação, etc ... No fundo, colocar a História em rede com a sociedade.
Mas não basta usar a Internet e a Televisão. Não podemos excluir a papel charneiro que os programadores informáticos, quando aliados a esta causa, poderão desempenhar na dinamização de software informativo e pedagógico, com a chancela de garantia dos Historiadores devidamente creditados para o efeito. No fundo e utilizando uma expressão nossa familiar – um plano tecnológico na divulgação da História de Portugal. Esta intenção tem por objectivo evitar que todo e qualquer pseudo intelectual ou pseudo comentador possa tomar o lugar de um Historiador na análise de temas históricos, tal como nós Historiadores não deveremos opinar impunemente sobre matemática ou arquitectura ...
Não poderá escapar à comunidade científica e aos amantes da História o sucesso conseguido pelo primeiro jogo de computador criado por Portugueses sobre História Portuguesa – refiro-me ao produto Portugal 1111 – a Conquista de Soure, dinamizado por Professores da Universidade de Coimbra e por técnicos informáticos nacionais[4]. Quem nos garante que igual façanha não possa ser repetida ? Só se não for tentada ...
A História e a Indústria Editorial
A História nunca passa de moda e, contrariamente à maioria das ciências físicas, tem ocupado um lugar permanente no decurso da evolução intelectual da Humanidade. Ora, esta ideia de que a História está sempre na moda, encaixa-se perfeitamente no sucesso que Romances Históricos, obras de divulgação e obras de grande fôlego têm conhecido entre nós. Será preciso recordar o sucesso imenso de obras como a História dos Concelhos e Freguesias de Portugal, publicada com um jornal nacional de grande tiragem ? ou das sucessivas Histórias de Portugal publicadas entre nós ? ou das Biografias Régias publicadas pelo Círculo de Leitores ? este apelo do mercado deve fazer qualquer profissional de História empenhar-se na sua disciplina e é um factor de estímulo para apresentar ideias e projectos para novos domínios de análise, senão vejamos :
- a História Empresarial : não faltam, certamente, empresas (grandes, pequenas ou médias) interessadas no estudo das suas origens e no conhecimento das estratégias que garantiram o seu sucesso
- a História Local : é nossa convicção que cada Autarquia Local deve ter nos seus quadros pelo menos um profissional de História, que dinamize o estudo das tradições locais e do património histórico e cultural
- Projectos de tradução de grandes clássicos da Literatura e da Historiografia : que implicaria a mobilização dos nossos colegas de Línguas e Literaturas Modernas e da História – aliando o conhecimento do passado e do autor às técnicas de tradução (e interesse das editorias não faltaria certamente)
No entanto, será importante sublinhar junto da maioria dos colegas, que este tipo de projectos de trabalho pode não significar emprego, mas sim trabalho. E, neste sentido, afiguram-se dois caminhos possíveis : por um lado, numa óptica de freelancing, o licenciado pode apresentar projectos a mais que uma editora, ou então, simplesmente, como qualquer trabalhador vinculado, trabalhar permanentemente numa dada empresa – um privilégio de poucos, infelizmente – e ousar pensar numa carreira.
O Historiador : um funcionário público ?
Outro anátema mental interessante, está relacionado com a ideia de que o Historiador é um funcionário público. Não nos parece inteiramente verdadeira. O Historiador poderá perfeitamente ser encarado como um qualquer funcionário liberal, contratado pelos seus serviços pelo mundo empresarial ou por qualquer particular interessado no estudo da sua figura, percurso, ou da sua família.
Estamos certos que, caso este princípio seja bem aceite pela sociedade, não tardará a criação de empresas de Historiadores, que oferecem a qualquer instituição os seus préstimos. E o que dizer das empresas de recriação histórica, recentemente reunidas em congresso em Óbidos ? será de menosprezar o seu papel na dinamização da História ? não nos parece ...
Porque não pensar a História como um métier, como propõe Marc Bloch na sua Introdução à História ou Métier d`Historien ? Este desafio de Bloch, já inovador na década de 30 do século passado, permite pensar a História não apenas como um saber profissional e profissionalizante, mas como uma maneira de ser e de estar na vida.
A História e a Sociedade
Outro dos nossos projectos é a criação de escolas dedicadas aos estudos históricos abertas a todos os portugueses ou estrangeiros que, sem excepção, se queiram dedicar à arte de clio no melhor das suas capacidades e num verdadeiro acto de amor pelo saber. Uma das propostas que nos parece nada descabida é a criação de Cursos Livres de História de Portugal nos nossos Lares de Terceira Idade, sendo certo que a adesão seria, no mínimo, interessante. Os Idosos são sensíveis, como ninguém, aos assuntos históricos e a sua larga experiência de vida será proveitosa. Estamos certos que as instituições públicas e privadas de solidariedade social não excluiriam esta proposta, que aliás lhes traria maiores dividendos e maior procura dos seus serviços. Não basta apregoar como bandeira da contemporaneidade a aprendizagem ao longo da vida se a sua aplicação for um fiasco.
Para além da aposta na chamada Terceira Idade, propomos a criação de empresas de gestão turística para empreendimentos de turismo rural e de habitação, ou para planeamento de visitas e viagens, que empregaria colegas nossos como guias e como animadores turísticos, outra das portas que se abre à economia nacional e que deve ser uma aposta para o século XXI.
O Processo de Bolonha e a licenciatura em História
No entanto – e porque este debate versa sobretudo a recepção do Processo de Bolonha nas nossas Universidades e, mais concretamente, nesta nossa casa – como equacionar novas saídas profissionais partindo de um plano de estudos que futuramente será bietápico – com um ciclo de estudos graduados e outro de estudos pós-graduados (correspondente a um ciclo de Mestrado e a outro de Doutoramento), sendo a licenciatura já não apenas um fim de formação, mas um mero ponto intermediário articulado com a necessidade de formação ao longo da vida ? Ora, esta Reforma vai, inevitavelmente, exigir muito mais de professores e de alunos. Em primeiro lugar, porque a formação graduada da Licenciatura corresponderá a 3 anos curriculares, o que obriga o Professor a fazer opções programáticas e a actualizar constantemente as suas bibliografias e leituras. Por outro lado, o aluno deverá compreender que deve investir em consulta bibliográfica, em investigação historiográfica e no trabalho com fontes documentais, devendo o discente estar sensibilizado que há muito mais vida para lá dos apontamentos das aulas ...
Uma licenciatura em História de 3 anos leva-nos a pensar profundamente a actual estrutura curricular semestral e a possibilidade – se é que não mesmo a inevitabilidade – de voltar a colocar algumas das principais cadeiras em módulos anuais, conciliados com o actual sistema semestral (investindo num tratamento mais exaustivo das vertentes política, económica e social geral, sem esquecer a componente História de Portugal e, na nossa opinião, uma aposta na História da Arte, que deverá ser uma ferramenta a ter em conta). Por outro lado, tendo presente a estrutura tradicional, que opta por tratar disciplinas como a Pré História, as Civilizações Pré-Clássicas e Clássicas no 1º Ano, a Idade Média no 2º Ano, a Idade Moderna no 3º e a Época Contemporânea no 4º, das duas uma : ou se opta pela fusão de algumas disciplinas numa cadeira mais abrangente, ou então, um tratamento mais superficial, deixando pistas para o ciclo pós-graduado. Ocorre-nos, por exemplo, criar um super primeiro ano, juntando num mesmo semestre as disciplinas de Pré História, Pré Clássicas e Clássicas e no 2º Semestre a iniciação à História Medieval, que se prolongaria para o 2º Ano, ou, ainda, a possibilidade de refundir, como anteriormente, a História Moderna e Contemporânea num mesmo ano lectivo, opção que suscitaria alguma animosidade mas que, estamos certos, poderia ser útil e profícua a uma melhor gestão do tempo.
Concluindo
Para concluir, gostaríamos de sensibilizar a comunidade para a iminência da aplicação entre nós do Processo de Bolonha, já que a maioria dos agentes universitários parece adormecido, ou no mínimo, anestesiado, perante o andamento natural do processo e a necessidade de operar mudanças profundas – e provavelmente fracturantes – no seio da Universidade Portuguesa, sobretudo no tocante aos hábitos de ensino, às licenças sabáticas de longa duração e à negligência no cuidado que deveria ser constante com a actualização dos programas e das bibliografias. Alguns destes passos, foram já tomados, de forma resoluta e decidida, pelos nossos colegas do Ensino Politécnico. Dir-me-ão que o próprio carácter do politécnico – mais ligado à vida prática e menos especulativo e reflexivo – poderá ter sido uma das razões. Talvez. Mas a gestão de todo o processo em antecipação – e não em reacção – e a realização de fóruns e mesas redondas alargadas também foi importante. Apesar da velha rivalidade entre Universidades e Politécnicos, saibamos aprender com quem já pensou (e pensou bem), o futuro do ensino superior em Portugal.
Esperamos que esta breve reflexão possa ter introduzido algumas pistas e tentativas de solução para os problemas com que se depara a nossa licenciatura e do papel dos estudos históricos na nossa sociedade, tendo presente as alterações trazidas pelo Processo de Bolonha, nomeadamente a noção de empregabilidade, um sistema de créditos global à escala europeia e a noção de mobilidade de recursos científicos, em verdadeira rede.
GONÇALO MAIA MARQUES
gmaiamarques@hotmail.com
[1] ver site www.uc.pt/eneh
[2] www.arqnet.pt
[3] www.aph.com.pt
[4] ver site www.portugal1111.com
O Licenciado em História : um condenado à docência ?
Falar de empregabilidade na área da História poderá parecer ousado ou, até, utópico, sobretudo numa atmosfera cultural marcada pela imagem mental do licenciado em História a desempenhar, quase exclusivamente, funções docentes. No entanto, não partilhamos desta ideia profusamente disseminada na nossa comunidade e acreditamos demasiado nas capacidades do licenciado em História – quando aplicado e dedicado ao seu curso – para lhe atribuir papel tão restritivo no panorama profissional português.
O nosso objectivo fundamental é o de sensibilizar todos os agentes universitários e a sociedade em geral, para o imenso manancial de possibilidades de trabalho e de investigação que a História abre em seu redor e cuja exploração – num país com o passado riquíssimo como o nosso – pode ser um factor de animação cultural do país e uma boa solução para combater a tão apregoada crise. Mais adiante propomos um plano de prioridades para o desenvolvimento da consciência histórica na vida cultural e no tecido empresarial português, que consideramos ser praticável, caso haja investimento público, mas, sobretudo, privado.
As competências do licenciado
Como é sabido, as competências tradicionalmente ligadas ao licenciado em História prendem-se, segundo a Reforma Curricular de 2001 do Ministério da Educação, com três domínios distintos :
- domínio da informação / utilização de fontes históricas
- compreensão histórica (nomeadamente temporalidade e espacialidade)
- comunicação em história
Para além destes, o documento desenvolve mais algumas características, aliás já conhecidas do grande público e esgrimidas, frequentemente, em debates da especialidade :
- capacidade invulgar de gestão da informação
- raciocínio metódico e organizado
- invulgar capacidade de compreensão da diferença
- cultura geral diversificada e grande dinamismo intelectual
Com todo o respeito que o documento ministerial nos merece, ousamos apontar mais alguns aspectos que nos parecem importantes na formação do licenciado em História e que, doravante, deverão ser tidos em conta, antes de mais, pela sociedade (dita do conhecimento) e, só depois, pelo mercado de trabalho. Este esforço será tanto melhor sucedido, quanto menor for o número de vagas para os cursos em História. Esta redução de vagas irá permitir, aliás, dois feitos que, de outra forma, dificilmente seriam atingidos – primeiramente, uma aposta na qualidade, que contemplará necessariamente a justa compensação do aluno aplicado e trabalhador (e põe termo à mercantilização do canudo, que abriu a licenciatura em História indiscriminadamente a alunos muitos deles pouco interessados na disciplina e muito mais sedentos de obterem o título de licenciado) e, por outro lado, um relativo controlo do número de licenciados e a garantia que o mercado de trabalho não ficará saturado. E esta, meus caros amigos, é uma condição essencial para a sustentabilidade do emprego em História e, mais ainda, para a dignificação da imagem externa da Universidade, que, actualmente, perante semelhante boom de vagas, pode ser encarada pela sociedade portuguesa como uma fábrica de canudos, o que em nada a dignifica.
Pensar a empregabilidade em História
Realizou-se recentemente na cidade de Coimbra o I Encontro Nacional de Estudantes de História[1] – dias 15 a 17 de Abril, em que esta e outras questões relacionadas com o futuro da História foram amplamente debatidas. Uma das ideias dominantes no painel relativo a saídas profissionais foi, necessariamente, a superação da tensão licenciado em história só pode ser professor.
Em primeiro lugar, há que colocar algumas perguntas a todos os licenciados e a todos os docentes – que competências julgam ter adquirido no decorrer da sua licenciatura e em que medida essas competências podem ser úteis à vida quotidiana ? a História é um mero saber teórico, ou tem alguma aplicabilidade na vida prática ? que espaço deve ser dado aos alunos interessados em colaborar em projectos de investigação alargados ?
Num segundo momento, será importante alertar a comunidade historiográfica e todos os cultores da História, quer façam dela sua forma de vida, ou não, para alternativas que se sobreponham à tradicional vocação forçada do licenciado – o ensino e o desempenho de funções docentes. Neste sentido, propomos um plano alargado de divulgação das potencialidades científicas e quotidianas da História, que passaremos a apresentar, e que mereceu aturada reflexão junto de alguns colegas que actualmente frequentam o 3º ano da Licenciatura nesta casa. É um plano ambicioso, mas que pensamos estar ao nosso alcance, tendo em consideração as potencialidades históricas naturais do nosso país, uma indústria futura a ter em conta para o desenvolvimento da economia nacional, tal como o turismo e o património histórico-cultural.
A História e as TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação)
Numa sociedade em rede, a informática desempenha um papel crucial na actualização e preservação do conhecimento, bem como na sua transmissão em formatos alargados e globais. Ora, como qualquer outra ciência, a História não deve menosprezar o papel divulgador e massificado das TIC e deve procurar fazer bom uso de computadores, leitores de DVD, projectores multimédia, etc ...
Pensamos ser imperioso apostar na criação de uma Associação Nacional de Historiadores Portugueses – já que uma Ordem assusta os mais temerários ... – que congregasse projectos comuns dos diversos cultores da História, contra elitismos e a noção de Historiadores de primeira ou de segunda. Esta associação – que contaria com um pagamento de quotas anual, por parte dos seus associados, para além de outros patrocínios de instituições privadas e do usufruto de descontos na Rede Portuguesa de Museus, etc ... mas igualmente com a distribuição de uma publicação que divulgasse as actividades da associação – criaria projectos para a realização de documentários e mesas redondas em estações de televisão de sinal aberto ou de cabo – como os 4 canais abertos, ou ainda (e sobretudo) o Canal de História, o Canal RTP Memória, entre outros, mais vocacionados para a componente temática da História.
Esta ideia podia impulsionar a criação de grupos de trabalho e mesmo de empresas dedicadas à produção de documentários, reunindo especialistas em audiovisuais, em efeitos especiais e, necessariamente, empregando licenciados em História que, com o domínio do seu saber científico especializado, fossem os consultores dos documentários e garantissem a sua fidedignidade. Temas de História de Portugal, Biografias Régias – porque não dirigidas pelos autores do Círculo de Leitores, reconhecidos académicos de elevado prestígio, Estudos de História Regional e Local, etc ... Este poderia ser um primeiro e importante passo.
Mas falar das TIC, é não esquecer o domínio avassalador exercido pela Internet nos nossos dias e o papel que Historiadores e divulgadores da História têm na criação de páginas tão consultadas e badaladas como o excelente Portal da História[2], sites pessoais e institucionais como o da Academia Portuguesa de História[3], das diversas Faculdades de Letras e respectivos Institutos e Departamentos de História. A futura Associação dos Historiadores Portugueses deveria, entre outras responsabilidades, criar um site que colocasse toda a comunidade histórica e historiográfica em rede, promovendo um debate alargado de todos os agentes produtores e cultores da História, informações pessoais e curriculum`s vitae de cada um dos seus membros, com indicação dos interesses pessoais de investigação, etc ... No fundo, colocar a História em rede com a sociedade.
Mas não basta usar a Internet e a Televisão. Não podemos excluir a papel charneiro que os programadores informáticos, quando aliados a esta causa, poderão desempenhar na dinamização de software informativo e pedagógico, com a chancela de garantia dos Historiadores devidamente creditados para o efeito. No fundo e utilizando uma expressão nossa familiar – um plano tecnológico na divulgação da História de Portugal. Esta intenção tem por objectivo evitar que todo e qualquer pseudo intelectual ou pseudo comentador possa tomar o lugar de um Historiador na análise de temas históricos, tal como nós Historiadores não deveremos opinar impunemente sobre matemática ou arquitectura ...
Não poderá escapar à comunidade científica e aos amantes da História o sucesso conseguido pelo primeiro jogo de computador criado por Portugueses sobre História Portuguesa – refiro-me ao produto Portugal 1111 – a Conquista de Soure, dinamizado por Professores da Universidade de Coimbra e por técnicos informáticos nacionais[4]. Quem nos garante que igual façanha não possa ser repetida ? Só se não for tentada ...
A História e a Indústria Editorial
A História nunca passa de moda e, contrariamente à maioria das ciências físicas, tem ocupado um lugar permanente no decurso da evolução intelectual da Humanidade. Ora, esta ideia de que a História está sempre na moda, encaixa-se perfeitamente no sucesso que Romances Históricos, obras de divulgação e obras de grande fôlego têm conhecido entre nós. Será preciso recordar o sucesso imenso de obras como a História dos Concelhos e Freguesias de Portugal, publicada com um jornal nacional de grande tiragem ? ou das sucessivas Histórias de Portugal publicadas entre nós ? ou das Biografias Régias publicadas pelo Círculo de Leitores ? este apelo do mercado deve fazer qualquer profissional de História empenhar-se na sua disciplina e é um factor de estímulo para apresentar ideias e projectos para novos domínios de análise, senão vejamos :
- a História Empresarial : não faltam, certamente, empresas (grandes, pequenas ou médias) interessadas no estudo das suas origens e no conhecimento das estratégias que garantiram o seu sucesso
- a História Local : é nossa convicção que cada Autarquia Local deve ter nos seus quadros pelo menos um profissional de História, que dinamize o estudo das tradições locais e do património histórico e cultural
- Projectos de tradução de grandes clássicos da Literatura e da Historiografia : que implicaria a mobilização dos nossos colegas de Línguas e Literaturas Modernas e da História – aliando o conhecimento do passado e do autor às técnicas de tradução (e interesse das editorias não faltaria certamente)
No entanto, será importante sublinhar junto da maioria dos colegas, que este tipo de projectos de trabalho pode não significar emprego, mas sim trabalho. E, neste sentido, afiguram-se dois caminhos possíveis : por um lado, numa óptica de freelancing, o licenciado pode apresentar projectos a mais que uma editora, ou então, simplesmente, como qualquer trabalhador vinculado, trabalhar permanentemente numa dada empresa – um privilégio de poucos, infelizmente – e ousar pensar numa carreira.
O Historiador : um funcionário público ?
Outro anátema mental interessante, está relacionado com a ideia de que o Historiador é um funcionário público. Não nos parece inteiramente verdadeira. O Historiador poderá perfeitamente ser encarado como um qualquer funcionário liberal, contratado pelos seus serviços pelo mundo empresarial ou por qualquer particular interessado no estudo da sua figura, percurso, ou da sua família.
Estamos certos que, caso este princípio seja bem aceite pela sociedade, não tardará a criação de empresas de Historiadores, que oferecem a qualquer instituição os seus préstimos. E o que dizer das empresas de recriação histórica, recentemente reunidas em congresso em Óbidos ? será de menosprezar o seu papel na dinamização da História ? não nos parece ...
Porque não pensar a História como um métier, como propõe Marc Bloch na sua Introdução à História ou Métier d`Historien ? Este desafio de Bloch, já inovador na década de 30 do século passado, permite pensar a História não apenas como um saber profissional e profissionalizante, mas como uma maneira de ser e de estar na vida.
A História e a Sociedade
Outro dos nossos projectos é a criação de escolas dedicadas aos estudos históricos abertas a todos os portugueses ou estrangeiros que, sem excepção, se queiram dedicar à arte de clio no melhor das suas capacidades e num verdadeiro acto de amor pelo saber. Uma das propostas que nos parece nada descabida é a criação de Cursos Livres de História de Portugal nos nossos Lares de Terceira Idade, sendo certo que a adesão seria, no mínimo, interessante. Os Idosos são sensíveis, como ninguém, aos assuntos históricos e a sua larga experiência de vida será proveitosa. Estamos certos que as instituições públicas e privadas de solidariedade social não excluiriam esta proposta, que aliás lhes traria maiores dividendos e maior procura dos seus serviços. Não basta apregoar como bandeira da contemporaneidade a aprendizagem ao longo da vida se a sua aplicação for um fiasco.
Para além da aposta na chamada Terceira Idade, propomos a criação de empresas de gestão turística para empreendimentos de turismo rural e de habitação, ou para planeamento de visitas e viagens, que empregaria colegas nossos como guias e como animadores turísticos, outra das portas que se abre à economia nacional e que deve ser uma aposta para o século XXI.
O Processo de Bolonha e a licenciatura em História
No entanto – e porque este debate versa sobretudo a recepção do Processo de Bolonha nas nossas Universidades e, mais concretamente, nesta nossa casa – como equacionar novas saídas profissionais partindo de um plano de estudos que futuramente será bietápico – com um ciclo de estudos graduados e outro de estudos pós-graduados (correspondente a um ciclo de Mestrado e a outro de Doutoramento), sendo a licenciatura já não apenas um fim de formação, mas um mero ponto intermediário articulado com a necessidade de formação ao longo da vida ? Ora, esta Reforma vai, inevitavelmente, exigir muito mais de professores e de alunos. Em primeiro lugar, porque a formação graduada da Licenciatura corresponderá a 3 anos curriculares, o que obriga o Professor a fazer opções programáticas e a actualizar constantemente as suas bibliografias e leituras. Por outro lado, o aluno deverá compreender que deve investir em consulta bibliográfica, em investigação historiográfica e no trabalho com fontes documentais, devendo o discente estar sensibilizado que há muito mais vida para lá dos apontamentos das aulas ...
Uma licenciatura em História de 3 anos leva-nos a pensar profundamente a actual estrutura curricular semestral e a possibilidade – se é que não mesmo a inevitabilidade – de voltar a colocar algumas das principais cadeiras em módulos anuais, conciliados com o actual sistema semestral (investindo num tratamento mais exaustivo das vertentes política, económica e social geral, sem esquecer a componente História de Portugal e, na nossa opinião, uma aposta na História da Arte, que deverá ser uma ferramenta a ter em conta). Por outro lado, tendo presente a estrutura tradicional, que opta por tratar disciplinas como a Pré História, as Civilizações Pré-Clássicas e Clássicas no 1º Ano, a Idade Média no 2º Ano, a Idade Moderna no 3º e a Época Contemporânea no 4º, das duas uma : ou se opta pela fusão de algumas disciplinas numa cadeira mais abrangente, ou então, um tratamento mais superficial, deixando pistas para o ciclo pós-graduado. Ocorre-nos, por exemplo, criar um super primeiro ano, juntando num mesmo semestre as disciplinas de Pré História, Pré Clássicas e Clássicas e no 2º Semestre a iniciação à História Medieval, que se prolongaria para o 2º Ano, ou, ainda, a possibilidade de refundir, como anteriormente, a História Moderna e Contemporânea num mesmo ano lectivo, opção que suscitaria alguma animosidade mas que, estamos certos, poderia ser útil e profícua a uma melhor gestão do tempo.
Concluindo
Para concluir, gostaríamos de sensibilizar a comunidade para a iminência da aplicação entre nós do Processo de Bolonha, já que a maioria dos agentes universitários parece adormecido, ou no mínimo, anestesiado, perante o andamento natural do processo e a necessidade de operar mudanças profundas – e provavelmente fracturantes – no seio da Universidade Portuguesa, sobretudo no tocante aos hábitos de ensino, às licenças sabáticas de longa duração e à negligência no cuidado que deveria ser constante com a actualização dos programas e das bibliografias. Alguns destes passos, foram já tomados, de forma resoluta e decidida, pelos nossos colegas do Ensino Politécnico. Dir-me-ão que o próprio carácter do politécnico – mais ligado à vida prática e menos especulativo e reflexivo – poderá ter sido uma das razões. Talvez. Mas a gestão de todo o processo em antecipação – e não em reacção – e a realização de fóruns e mesas redondas alargadas também foi importante. Apesar da velha rivalidade entre Universidades e Politécnicos, saibamos aprender com quem já pensou (e pensou bem), o futuro do ensino superior em Portugal.
Esperamos que esta breve reflexão possa ter introduzido algumas pistas e tentativas de solução para os problemas com que se depara a nossa licenciatura e do papel dos estudos históricos na nossa sociedade, tendo presente as alterações trazidas pelo Processo de Bolonha, nomeadamente a noção de empregabilidade, um sistema de créditos global à escala europeia e a noção de mobilidade de recursos científicos, em verdadeira rede.
GONÇALO MAIA MARQUES
gmaiamarques@hotmail.com
[1] ver site www.uc.pt/eneh
[2] www.arqnet.pt
[3] www.aph.com.pt
[4] ver site www.portugal1111.com
sexta-feira, abril 08, 2005
O Futuro da História
Como é do conhecimento dos colegas do curso de História da FLUP, temos debatido frequentemente qual o futuro do licenciado. Quero abrir aqui um espaço para reflexões, sugestões e queixas acerca do assunto.
Na qualidade de representante dos discentes prometo levar até ao Departamento, todos os contríbutos que se julguem relevantes. Com a colaboração de todos será mais fácil enfrentar os dias que se advinham. Pela Clio e pela nossa "felicidade", participem.
Na qualidade de representante dos discentes prometo levar até ao Departamento, todos os contríbutos que se julguem relevantes. Com a colaboração de todos será mais fácil enfrentar os dias que se advinham. Pela Clio e pela nossa "felicidade", participem.
terça-feira, março 15, 2005
Um percurso pela Avintes Medieval
Um percurso pela Avintes Medieval
GONÇALO MAIA MARQUES e LUÍS ALVES DOS REIS[1]
É para esta assembleia repleta de avintenses ilustres, filhos desta pequena pátria milenar e das suas gentes, que dirigimos as nossas primeiras palavras – de amizade e consideração, por um lado, e de humildade e recolhimento, por outro, pelas eventuais imprecisões toponímicas ou de outra ordem, que possam surgir no decurso da apresentação desta comunicação, naturais daqueles que, mau grado o gosto que alimentam por estes caminhos e pelo cheiro desta terra, não a conhecem na plenitude das suas faculdades.
O nosso objectivo é levar a todos aqueles que nos escutam alguns elementos culturais e sociais que caracterizavam a vida quotidiana da Avintes Medieval e, a partir destes elementos, tentar traçar um quadro aproximado do aspecto que a vila teria há cerca de mil anos atrás. Para isso, procuramos socorrer-nos de algumas fontes produzidas na época medieval, como por exemplo, as Inquirições Gerais de Afonso III, de 1258; as Vereações Municipais Portuenses de 1390-95 (o mais antigo Livro até agora descoberto) ou a documentação monástica e diocesana.
1. As Inquirições Gerais de Afonso III de 1258
As Inquirições Gerais de 1258, organizadas e publicadas no Reinado de D. Afonso III, são hoje um dos instrumentos mais preciosos ao trabalho dos medievistas portugueses, não só pela sua extraordinária riqueza patrimonial e documental, como também pelas inestimáveis referências que nos fornecem quanto à organização da propriedade, ao pagamento das rendas, ao perfil social dos caseiros e dos rendeiros, às idiossincrasias da povoação inquirida e, em última instância, à radiografia que o inquiridor vai traçando daquilo que lhe cumpre registar e fazer chegar ao monarca.
Relativamente à primeira fonte que foi objecto da nossa atenção (as Inquirições Gerais de Afonso III, de 1258) decidimos estabelecer, primeiramente, um levantamento das fórmulas usadas pelos inquiridores, para tentar retirar daquele inquérito concretizado a pedido do monarca o máximo de informação possível. Depois de consultado um trabalho da Revista de História Económica e Social relacionado com o estudo destas Inquirições Gerais como fonte para a investigação no domínio da História da Nobreza[2], concluímos, com os autores do trabalho, tratar-se do seguinte esquema:
1. Inquirição relativa à propriedade eclesiástica e direitos de padroado
- “cuja est ipsa ecclesia/monasterium” (a quem pertence esta Igreja / Mosteiro ?)
- “quis dedit ei ipsam ecclesiam vel quis presentavit eam” (como foi adquirida ?)
- “si Dominus Rex habet ibi aliquod jus vel debet habere” (quais os rendimentos devidos ao Monarca ?)
2. Levantamento da restante propriedade
- “unde habuit iilud/ea (casal/casalia) vel quomodo acquisierunt illud/ea” (onde se situam os casais e qual o modo como foram adquiridos)
- “in quo tempore comparavit illud/ea” (quando foram adquiridos ?)
- “si habet Dominus Rex aliquod Realengum”[3] (há algum realengo?)
Este conjunto de perguntas, sabiamente formuladas pelos inquiridores com o intuito de por cobro a alguns desmandos da aristocracia e do clero que, como sabemos, angariavam enormes domínios fundiários pela acumulação de mercês régias e de doações, constituindo, assim, um poderoso inimigo da centralização da máquina administrativa que o Bolonhês pretendia implementar, visavam determinar, em primeiro lugar, qual a propriedade reguenga existente no lugar – já que o monarca era, ainda na época, um senhor entre muitos outros e um terratenente – e, num segundo momento, qual a restante propriedade privilegiada (pertencente ao Clero, Ordens Religioso – Militares ou à Nobreza). Note-se que, desde o Reinado de Afonso II que a Coroa vinha publicando Leis de Desamortização sobre o Património Eclesiástico e Nobre, como forma de proteger os interesses monárquicos e de travar o perigo corporizado pela manta de retalhos do Portugal senhorial.
Em seguida, uma breve nota sobre o casal. Trata-se de uma pequena ou média propriedade agrária, normalmente ligada a uma Instituição com grande peso social (Diocese, Mosteiro, Nobreza ou Coroa) que dela colhe os seus rendimentos por via directa (por usufruto do próprio trabalho) ou indirecta (recrutando mão de obra alheia à instituição e angariada em estratos que lhe eram hierarquicamente inferiores) e característica, sobretudo, do trabalho minifundiário decorrente de uma agricultura de subsistência, muito praticada na época medieval.
Cumprido que está este primeiro passo, que se revestiu de duas facetas essenciais – a compreensão da engrenagem do texto da fonte e a sua articulação com as nossas investigações – torna-se necessário, como sabiamente diz o povo, chamar Avintes ao barulho e perceber como esta vila foi retratada e analisada na Inquirição que lhe foi feita.
De facto, a região em que nos encontramos estava integrada no Julgado de Gondomar e, como afirma Luís Krus[4] “duas freguesias situavam-se em parte, na margem sul do douro – Lebrinho e Avintes; os inquiridores não atravessam o rio quia isti homines morabuntur ultra Durium, “non moranbutur in termino nostre inquisitionis”[5]. Apesar do sentimento de pertença ao espaço que hoje classificamos de Julgado de Gondomar não ser, na época, uma realidade, a população sabia que o propósito da inquirição seria apurar, antes de mais, as fontes de rendimentos detidas pelo Senhor Rei (Dominus Rex) na vila.
Ora sabemos que Avintes fazia parte, em 1258, dos domínios directamente controlados pelo Rei, ou seja, era um realengo ou reguengo. Ao contrário do que se poderia pensar, este elemento não abona muito em favor de uma grande quantidade de informação directa, no entanto, propomo-nos compartilhar a informação aí contida e se possível enriquecê-la com outros trabalhos e com o sempre indispensável conhecimento do terreno.
A primeira informação que nos é transmitida pela fonte é o nome da pessoa que é inquirida: Johannes Sbjerii. Seria, muito provavelmente, o pároco da vila. Infelizmente, nada mais se sabe acerca desta personagem além do nome. Com efeito, desconhece-se a sua origem, a sua ordem sacerdotal, e a duração do seu serviço em prol da comunidade, bem como a obra que deixou.
Algo que sabemos de muito concreto é o montante das rendas que eram entregues anualmente ao monarca, não fosse o propósito da Inquirição, antes de mais, a avaliação dos rendimentos detidos pela coroa no território avintense.
Não é de estranhar que o primeiro género a ser mencionado seja o pão.
Como muito bem sublinhou o Dr. Francisco Sampaio num trabalho recentemente publicado pela Confraria da Broa de Avintes[6], este produto – que é, ao mesmo tempo, um ícone avintense – é já conhecido e apreciado pelos nossos antepassados medievais, a ponto de ser alvo de uma importante nota no Foral concedido por Afonso III a Gaia. Diz o decreto que “defendemos firmemente sob pena de desuso que nenhuma nova portagem não imponha às padeiras da cidade do Porto, nem às outras mulheres de trigo ou outro grão que em Terras de Santa Maria comprarem e com ele a cidade quiserem passar - prontamente ordenamos e mandamos que se essas padeiras de Gaia quiserem vender seu pão na cidade, ou as padeiras da cidade em Gaia, os almotacés daquele lugar não se oponham [...] Por outra maneira não sejam constrangidos os d´Avintes de aportarem nos lugares onde lhes aprouver (15 de Fevereiro de 1282 – El Rei)”[7]. Mais tarde, o filho do Bolonhês, D. Dinis, publicará um conjunto de directivas em que se estabelece que, doravante, a cozedura de pão de milho deverá ser feita em Avintes e Valongo, substituindo o Porto, por riscos elevados de incêndio no burgo intra muros.
Podemos afirmar que numa altura em que o país procurava a consolidação territorial, na sequência das campanhas da Reconquista, já a região de Avintes era produtora de pão em quantidades suficientes para prover ao sustento da sua população e muito provavelmente para comercializar. Quem ainda não consultou a fonte, interrogar-se-á qual a quantidade de pão que era entregue sob a forma de renda. Nada mais, nada menos que sete moios ou medidas. Estas medidas estariam, no entanto, longe de ser comuns a todo o reino, pois a fonte apressa-se a especificar-nos que essas medidas teriam em conta a medida que se designava de palaciana, o que nos poderá remeter para o centro da intriga política – o paço real. Não nos esqueçamos que, desde Afonso II, a coroa procurava instalar na cúria régia a plenitude do poder político, num esforço concertado de centralização, que seria prosseguido por Sancho II mas, sobretudo, por Afonso III. Não é preciso muito estudo ou poder de imaginação para concluirmos que estaríamos perante a maior medida aplicada ao pão. Nas entrelinhas podemos deduzir que, de facto, a região em questão seria rica em grão.
De seguida temos o segundo género, o vinho. Os nossos conhecimentos são diminutos quanto ao seu enquadramento no burgo avintense, sabemos, porém, que o peso acumulado por este produto no comércio externo da cidade do Porto era já nesta época relevante, sobretudo com a região do Garonne, e poderemos, assim, avançar a possibilidade de ser o realengo de Avintes um dos fornecedores da cidade, perante a existência de vinhas documentáveis nas Inquirições. Quem cruzava o Douro numa pequena embarcação a remos para levar pão, podia também levar uma barrica ou pipa de vinho. A fonte fala-nos que eram entregues ao Rei sete quartas de vinho. Mais à frente, a palavra quartas surge entre parêntesis com o termo sic, sinal que quem transcreveu o documento original desconhecia esta medida. Ficamos assim sem saber a quantos litros corresponderiam essas quartas. Só uma leitura de outras referências nos possibilitará, por comparação, deduzir a dimensão relativa desta renda.
Finalmente, o realengo rendia ainda ao soberano um último género alimentício. Neste caso seriam capões, num número total de sete. Mais uma vez, só uma comparação com outras realidades nos permite concluir se esta quantidade era significativa de grande produção avícola na região. No entanto, o facto de ser pago em capões leva-nos também a concluir que seria prática corrente enviar os frangos mais magros como pagamento de rendas. O capão será sempre um galo grande e como tal uma exigência que demonstra que se pretendia do realengo o melhor que este tinha para dar.
As Inquirições dão-nos ainda outras informações, que podem revelar-se de muito interesse para futuros estudos.
Em primeiro lugar, ficamos a saber que existe um indivíduo, que dá pelo nome de D. Egidium Velasci (Egídio Vasques, actualizando), que compra terrenos anexos ao reguengo. A pergunta impõe-se: Quem é D. Egidium ? Qual a razão do seu investimento em Avintes? O único dado descoberto que pode ser útil para um aprofundar do tema é o facto de D. Egidium possuir leiras e “quebrantis” em Valbom, sendo que paga todos os anos nove dinheiros de impostos régios. Uma leitura casual desta informação não revelará tudo o que nela se encobre… Primeiramente, devemos notar que D. Egidium possui terras dos dois lados do Douro, a nosso ver uma prova que os portugueses medievos não eram tão avessos à ideia de viagem como nos querem fazer crer.
Uma segunda leitura mostra-nos que nem só de géneros vivia o monarca. Não devia ser muita a moeda que circulava entre o comum dos mortais… mas é este o meio através do qual D. Egidium paga a sua contribuição fiscal, sinal de que tinha provavelmente trato com esta forma de pagamento e um estatuto social que lhe conferia um rendimento já aceitável. Aqui se abre uma série de perguntas, um das quais a compreensão do valor facial da moeda e da sua relação com o poder económico da população - o que representaria, nos nossos dias, nove dinheiros? Que tipo de encargo era este que, para D. Egidium, seria demasiado oneroso ou, por outro lado, era algo que não o afectava consideravelmente? Como podemos facilmente constatar são muito mais as questões do que as respostas, esperamos num futuro breve poder inverter esta tendência e compartilhar os resultados dos nossos trabalhos convosco.
A fonte revela-nos ainda o nome de mais três avintenses, Petrus Subjerii (Pedro), Menendus Ribeirus (Mendo Ribeiro) e Pelagius Petri (Paio Pedro). Estas são as três testemunhas que juram que a informação prestada pelo inquirido é verdadeira. Uma vez mais abrem-se portas para a investigação e aqui então o desequilíbrio entre as perguntas e as respostas é ainda maior. Não sabemos rigorosamente nada acerca destes homens, podendo unicamente opinar que não devemos excluir a possibilidade de haver uma grau de parentesco entre o inquirido e a primeira testemunha, uma vez que partilha do mesmo apelido. No entanto, mais à frente, voltaremos a este assunto, para vos dar conta de algumas possíveis leituras que se foram cruzando connosco no decorrer das nossas investigações.
2. As Vereações Portuenses de 1390-95
As referências à Vila de Avintes contidas no mais antigo Livro de Vereações do município Portuense, estão relacionadas com duas actas – concretamente, as nos 26 e 84.
No que se refere ao primeiro documento, datado de 4 de Março de 1390, onde se encontra transcrita uma fonte preciosa para o estudo, não só do burgo avintense medieval, como de toda a Terra de Gaia, a Carta do Privilégio de Gaia, que será confirmada pelo Rei D. Dinis, somos confrontados com uma referência ao comércio de peixe no Douro e à sua regulamentação – “e outrossy regateiro nom saya ao camjnho pera comprar as vendas que veerem nem enbragalas ataa que uaam ao açougue ou a feira hu quiserem hir saluo que as regateiras de gaya e de vila nova comprem unde quiserem comprar e outro sy que os moradores da alheira e da vyntes uaam per qual das ditas vilas quiserem […]”[8]. Trata-se de um texto precioso, que nos permite tirar algumas ilações. Senão vejamos:
Em primeiro lugar, dá para perceber que o peixe desempenhava, juntamente com o pão, a base da dieta dos avintenses, que pelas suas condições geográficas e morfológicas, tinham acesso a cada um destes bens em quantidades apreciáveis.
Em segundo lugar, os privilégios concedidos às regateiras de Avintes, atestam a sua importância no quadro regional e, mormente, no contexto da urbe portuense. Estas mulheres vendiam o produto da sua faina nas feiras do Porto e granjearam, até, algum prestígio junto dos restantes ofícios tradicionais da cidade.
Por último, o documento emitido pela chancelaria dionisina dá-nos conta de uma preocupação muito grande da coroa na prossecução da ordem jurídica do Julgado de Gaia e dos seus juízes e funcionários, o que interessa de sobremaneira aos avintenses medievais, já que a aplicação da justiça e a cobrança de alguns impostos está dependente das autoridades locais gaienses, numa época em que Avintes já teria passado da alçada do Julgado de Gondomar – em 1258, como se lembram – para a jurisdição de Gaia[9].
Outra das leituras que podemos fazer neste momento e perante um público que conta com alguns dos mais insignes membros da Confraria da Broa de Avintes é a de que o pão era já, para os avintenses, um sinal da sua própria matriz cultural, da sua identidade. Não seria de estranhar que já nesta época a deliciosa broa de Avintes fosse acompanhada da suculenta sardinha (ou mesmo de outro peixe) pescada nas imediações da Foz do Douro, já em pleno mar, ou trazida ao Porto por mercadores galegos, que por aqui passavam abundantemente como as Vereações atestam.
Relativamente à acta nº 84, datada de 12 de Março de 1393, onde a vereação discute a sempre problemática questão do abastecimento de bens de primeira necessidade à cidade, diz-se que “huma das cousas per que a dita çidade vynham os mantimentos de ffora parte sse era per rrazom dos pescados que dhy leuauam e por quanto a elles era dito que os bargeiros davyntes e ual boom e de canpanhaa e de guimaraes vendiam os savees lanpreas a mujtos rregatoens e rrecoueiros de fora da dita çidade”[10].
De facto, quer Avintes, quer as restantes vilas que se encontram na margem Sul do Rio Douro eram grandes consumidoras de pescado e o destino do seu trabalho e da sua faina era o grande mercado vizinho da época : o burgo medieval portuense.
3. Avintes perante a Revolução de 1383 - 85
Sendo um dos mais importantes conflitos da Idade Média Portuguesa e tendo afectado a maior parte do país, a Revolução de 1383 – 85, cuja raiz é o casamento de Dona Beatriz com João I de Castela, na sequência da assinatura do Tratado de Salvaterra de Magos entre as coroas portuguesa e castelhana, fez sentir a sua marca também na região avintense.
Segundo afirma o Professor Humberto Baquero Moreno, “a cidade, contudo, que desempenhou um papel fulcral e fundamental no apoio ao Mestre de Avis foi o Porto. Sem o seu concurso dificilmente D. João poderia dispor de forças que lhe permitissem desencadear acções militares sobre redutos apoiantes de Dona Beatriz. Mas a participação do Porto tem de ser encarada num todo de que fazem parte as áreas limítrofes de Monchique, Cedofeita, Massarelos, Vila Nova, São João da Foz, Matosinhos, Leça, Azurara, Gaia Maior, Gaia Pequena, Coimbrões, Lavadores, Mafamude e Maceira, cujas populações numa acção conjunta constituíram um baluarte de resistência ao monarca castelhano[11]”. Mais ainda – “não havendo a menor dúvida que os gaienses tomaram voz pelo Mestre de Avis, sem a mínima hesitação, face até à causa, teremos no entanto de observar que nem sempre se verificou uma consonância no seio das localidades. A circunstância de muitas delas, sobretudo na região do norte, haverem proclamado a sua adesão a João I de Castela, resultou fundamentalmente da aderência da Nobreza ao compromisso de Salvaterra de Magos”[12].
Ainda que não esteja documentada a presença de avintenses nas hostes do partido de Avis ou do partido castelhano, é possível que, pela proximidade do burgo portuense, a arraia miúda avintense manifestasse a sua simpatia pela causa do Mestre. Por outro lado, os grandes senhores – e Avintes foi, durante toda a Idade Média, um domínio senhorial (primeiro do Monarca e depois da Nobreza) – receando a perda dos seus privilégios perante a rebelião popular, teriam apoiado o partido de Dona Beatriz e de João I de Castela. O cenário, apesar da escassez de testemunhos directos, não seria muito diferente daquele que agora reconstituímos.
Importa registar que, após o apoio dado pelos vizinhos do Porto e pela burguesia duriense ao Mestre de Avis na sua investidura como Regedor e Defensor do Reino, o Arcebispo de Braga, que suportava o partido de Dona Beatriz, planeia tomar a cidade do porto, em Maio de 1384, em resposta ao triunfo da frota portuense no combate do Cerco de Lisboa[13]. Perante esta ameaça é certo o apoio dado pelos habitantes da margem vizinha do Douro, onde se contavam os habitantes de Avintes. Para além deste episódio de natureza militar, convém dizer nesta apresentação que, logo que foi aclamado Rei de Portugal pelas Cortes de Coimbra, em 1385, D. João I parte para o Porto, onde agradece o apoio que lhe fora prestado no decorrer da Guerra com Castela, tendo permanecido em terras gaienses – note-se que o Alcaide de Gaia, Aires Gonçalves de Figueiredo, é um dos comandantes da defesa desta vasta região contra as tropas do Arcebispo de Braga. Chega a Gaia em 24 de Abril de 1385 “procedendo de imediato à travessia do Douro[14]”. É bem possível que um dos pontos utilizado pelo novo monarca e pelos seus homens para o embarque da comitiva régia fosse o famoso embarcadouro da Praia do Areinho de Avintes – não só pela sua posição geográfica e pelas acessibilidades que proporcionava, como também pela relativa proximidade das docas portuenses.
4. Avintes e a Historiografia Medievística Portuguesa
A ideia original desta apresentação prendia-se, acima de tudo, com a análise das Inquirições de 1258, mas ao entrarmos em contacto com outras fontes e informações fomos alargando o âmbito da mesma, tornando-a assim num percurso medieval por Avintes. Como tiveram oportunidade de observar, também as Actas de Vereação do Porto mereceram a nossa atenção. Quando pensávamos ter já a totalidade da nossa apresentação pronta, surgiu-nos uma outra informação a qual pensamos que se enquadra perfeitamente no nosso percurso medievo avintense.
Entre a vasta obra de um dos maiores medievistas portugueses de sempre, encontramos O monaquismo Ibérico e Cluny. Referimo-nos, obviamente, a José Mattoso. Nesta obra surge uma referência a um mosteiro em Vila Nova, no século X, que se trata do Mosteiro de Santa Marinha[15]. Dito desta forma, rapidamente nos apressaríamos a colocar o mosteiro junto ao Rio Douro, na freguesia de Santa Marinha, cerca de Mafamude. Esta é, sem embargo, uma das hipóteses avançadas pelo autor da obra[16]. O professor Mattoso avança ainda uma outra possível localização em Crestuma, devido ao facto de haver nessas latitudes um mosteiro dedicado também a Santa Marinha. No entanto um dos documentos que se refere a esse mosteiro localiza-o na Vila de Avintes. O professor José Mattoso apressa-se a desfazer o alegado equívoco apontando as duas localizações alternativas que anteriormente mencionamos e considerando errada a sua localização em Avintes conforme tinha sido assumida por diversos autores[17].
Não querendo ser mais papistas do que o Papa, não seríamos tão ligeiros com a fonte que afirma ser a localização do dito mosteiro em Avintes. No entanto visto não possuirmos nenhuma prova que o certifique estamos dispostos a negociar … A informação é pertinente e também aqui há mais do que se pode concluir à primeira vista. Partamos do pressuposto que o mosteiro não fosse de facto em Avintes, e sim numa outra localização das avançadas pelo professor Mattoso, ou até numa outra ainda não proposta. Porque é que o documento diz que era em Avintes? A esta pergunta também não podemos responder com certezas, no entanto surgem-nos vários raciocínios que pensamos não serem de todo desprovidos de lógica e bom senso.
Ø O escrevente conheceria mal a região de Vila Nova e para a sul do Douro só conhecia Avintes (quiçá era admirador da Broa).
Ø Não querendo entrar numa verdadeira teoria da conspiração, o escrevente poderia ser natural de Avintes e, como tal, procurava, através deste documento, projectar a sua terra natal e a memória dos seus antepassados
Ø Uma outra hipótese, e a nosso ver também esta bastante plausível, deve-se ao facto de Avintes ter uma dimensão territorial bastante mais ampla que a considerada hodiernamente.
5. Uma Curiosidade
Uma surpresa ...
Vejamos um documento que pode vir a aguçar alguma curiosidade.
Num trabalho que apresenta um catálogo da documentação régia contida nos “Livros de Originais” do Cabido da Sé do Porto, Ivo Carneiro de Sousa e Maria Inês Amorim[18] apontam, no 77º documento que recolheram, datado de 21 de Abril de 1459, e emitido em Lisboa uma sentença de Afonso V em que o Africano decide que Fernão Vasques de Avintes não deve obrigar os caseiros do Cabido Portuense e de alguns Mosteiros da Diocese a darem-lhe geiras e outros pagamentos. Este tipo de conflitos, entre particulares, nobres e as autoridades canonicais, é comum durante toda a Idade Média, como documentam alguns trabalhos publicados por investigadores da especialidade[19].
Não poderá haver uma relação entre D. Egidium Velasci – Egídio Vasques (lembram-se ?) e este fidalgo da Casa do Africano, Fernão Vasques ? A pergunta – por muito ingénua que possa parecer – fica feita a todos aqueles que queiram ter a ousadia de lhe dar resposta … No entanto, ao longo das leituras que empreendemos no decurso das nossas investigações, sobretudo a de Avintes na margem esquerda do Douro da Dra. Ana Filomena Leite Amaral[20], concluímos que, nas Inquirições posteriores às de Afonso III, precisamente as d`El Rei D. Dinis de 1284–88, a freguesia de sam pedro d`avyntes surge como a que foy de dom gil vaasquez[21]. Ora, tal informação, permite-nos estabelecer três ideias :
Ø Avintes está ligada à Família Vasques, pelo menos desde 1258 (a primeira referência é a D. Egídio Vasques, um homem certamente possidente e respeitado, com terras na margem vizinha do Douro, em Valbom e a segunda é a D. Gil Vasques que, em 1288 já não é senhor de Avintes). Não poderemos estar perante o mesmo indivíduo (repare-se na similitude entre Egidium e Gil) ? Não nos esqueçamos que são transcorridos apenas 30 anos sobre a primeira referência às terras que este indivíduo detém em Avintes. A questão fica em aberto.
Ø A Família Vasques poderia muito bem ter sido agraciada com o Senhorio da Vila de Avintes, já que as terras eram reguengas e, portanto, mais facilmente transmissíveis à fidalguia por banda da coroa.
Ø Com o aparecimento da figura de Fernão Vasques de Avintes, neste último documento de 1459 - e é bem possível que ele esteja relacionado com este clã – concluímos que o domínio desta família bem se poderá ter estendido até aos alvores da modernidade, já que sendo Fernão Vasques fidalgo da casa do Rei Africano, é necessário que a família tivesse tradição de serviço à Coroa (como parece ser o caso) e um conjunto de laços familiares constituído, que lhe permitisse formar uma casa nobre.
6. Uma Conclusão ??
Normalmente, quando se fala da Avintes Medieval, há uma tendência natural para associar o nome de D. Gundesindo a esta milenar villa, tal como a sua famosa Carta de Doação, onde vai agraciar Avintes com algumas importantes propriedades e domínios. Ora, nem tudo que reluz é ouro e não podemos tomar esta pequena parte do todo pela realidade ampla e significativamente mais rica da Avintes da Idade Média.
Procuramos incorporar neste trabalho, algumas fontes que, geralmente, não são muito utilizadas neste tipo de apresentações e que consideramos de uma riqueza apreciável – como as Inquirições de Afonso III, as Actas de Vereação e, mesmo, alguma historiografia medievística da especialidade (onde salientamos os textos de José Mattoso e de Humberto Baquero Moreno).
Uma comunicação como esta – que, desde o princípio, e a avaliar pelo título, talvez seja demasiado ambiciosa (mas não será a ambição o motor do progresso científico ?) – está necessariamente inacabada e carece de uma cuidada complementaridade com os demais interlocutores e cultores da história local avintense.
Por último, pretendemos demonstrar que a existência de um fecundo diálogo entre amadores locais e académicos é mais do que um sonho ou uma miragem distante, uma utopia que pode ser alcançada e, até, convertida em realidade, onde o amador local se torna um académico e vice versa.
GONÇALO MAIA MARQUES [gmaiamarques@hotmail.com]
LUÍS ALVES DOS REIS [valadares_bishop@hotmail.com]
FONTES CONSULTADAS
Portugaliae Monumenta Historica – Inquisitiones – Inquirições Gerais de D. Afonso III, Segunda Alçada, Julgado de Gondomar.
VEREAÇOENS (anos de 1390 – 95) – edição de Artur de Magalhães BASTO, Porto, Edição da Câmara Municipal e do Gabinete de História da Cidade, s/d.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
AMARAL, Ana Filomena Leite - Avintes na margem esquerda do Douro, Avintes, Edição da Junta de Freguesia, 1993.
DUARTE, Luís Miguel e Amaral, Luís Carlos – Prazos do Século e Prazos de Deus : os aforamentos na Câmara e no Cabido da Sé do Porto no último quartel do século XIV, in Revista da Faculdade de Letras (História), vol. I, II Série, Porto, Edição da Faculdade de Letras, 1984, pp. 97 – 134.
KRUS, Luís – A Escrita e o Poder : as Inquirições de Afonso III, in Estudos Medievais, nº1, Porto, Edição do Centro de Estudos Humanísticos e da Secretaria de Estado da Cultura, 1981, pp. 59 – 79.
MATTOSO, José; KRUS, Luís e BETTENCOURT, Olga – As Inquirições de 1258 como fonte para o estudo da História da Nobreza – o Julgado de Aguiar de Sousa, in Revista de História Económica e Social, Edição da Livraria Sá da Costa, nº 9, 1982, pp. 17 – 74.
MATTOSO, José – O monaquismo Ibérico e Cluny, Lisboa, Círculo de Leitores, 2002.
MORENO, Humberto Baquero – O Norte na Revolução de 1383, separata da Revista Gaya, Gaia, Edição do Gabinete de História e Arqueologia da Câmara Municipal de Gaia, volume II, 1984.
– O Julgado de Gaia e os seus homens no Reinado de D. João I, separata da Revista Gaya, Gaia, Edição do Gabinete de História e Arqueologia da Câmara Municipal de Gaia, volume II, 1984.
SAMPAIO, Francisco – Oração de Sapiência, in A Broa de Avintes : o prestígio através dos tempos, Avintes, Edição da Confraria da Broa de Avintes, 2003, pp. 7 – 15.
SOUSA, Ivo Carneiro de e AMORIM, Maria Inês – Inventário de Documentação Régia nos Livros de Orihginais do Cartório do Cabido da Sé do Porto, Porto, Edição do Arquivo Distrital, 1981.
[1] Estudantes do curso de História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (3º Ano)
[2] MATTOSO, José; KRUS, Luís e BETTENCOURT, Olga – As Inquirições de 1258 como fonte para o estudo da História da Nobreza – o Julgado de Aguiar de Sousa, in Revista de História Económica e Social, Edição da Livraria Sá da Costa, nº 9, 1982, pp. 17 – 74.
[3] cf. Idem Ibidem, p. 22.
[4] cf. KRUS, Luís – A Escrita e o Poder : as Inquirições de Afonso III, in Estudos Medievais, nº1, Porto, Edição do Centro de Estudos Humanísticos e da Secretaria de Estado da Cultura, 1981, pp. 59 – 79.
[5] cf. Idem Ibidem, pp. 63 – 64.
[6] SAMPAIO, Francisco – Oração de Sapiência, in A Broa de Avintes : o prestígio através dos tempos, Avintes, Edição da Confraria da Broa de Avintes, 2003, pp. 7 – 15.
[7] Decreto de Afonso III de 15 de Fevereiro de 1282, citado por SAMPAIO, Francisco – Op. Cit, p. 8.
[8] VEREAÇOENS (anos de 1390 – 95), pp. 55 – 56.
[9] refira-se, por curiosidade, que nas Inquirições Dionisinas (1284–88), a paróquia de “Sam Pedro dAvintes” surge incluída no Julgado de Gaia. A explicação pode estar relacionada com dois aspectos – ou os fiscais de Afonso III se equivocaram na inclusão de Avintes nas terras de Gondomar, ou a vila transitou das mãos de um para outro julgado, no Reinado de D. Dinis. A mudança pode ter sido operada por motivos de natureza fiscal e de centralização administrativa.
[10] VEREAÇOENS (anos de 1390 – 95), p. 181.
[11] MORENO, Humberto Baquero – O Norte na Revolução de 1383, separata da Revista Gaya, Gaia, Edição do Gabinete de História e Arqueologia da Câmara Municipal de Gaia, volume II, 1984, pp. 13.
[12] MORENO, Humberto Baquero – O Julgado de Gaia e os seus homens no Reinado de D. João I, separata da Revista Gaya, Gaia, Edição do Gabinete de História e Arqueologia da Câmara Municipal de Gaia, volume II, 1984, pp. 161.
[13] Idem Ibidem, p. 13.
[14] Idem Ibidem, p. 14.
[15] MATTOSO, José – O monaquismo Ibérico e Cluny, Lisboa, Círculo de Leitores, 2002, pp. 53 – 54.
[16] Idem Ibidem, p. 53.
[17] Idem Ibidem, p. 54.
[18] SOUSA, Ivo Carneiro de e AMORIM, Maria Inês – Inventário de Documentação Régia nos Livros de Orihginais do Cartório do Cabido da Sé do Porto, Porto, Edição do Arquivo Distrital, 1981,p. 22.
[19] Veja-se o trabalho de Luís Miguel DUARTE e Luís Carlos Amaral – Prazos do Século e Prazos de Deus : os aforamentos na Câmara e no Cabido da Sé do Porto no último quartel do século XIV, in Revista da Faculdade de Letras (História), vol. I, II Série, Porto, Edição da Faculdade de Letras, 1984, pp. 97 – 134.
[20] AMARAL, Ana Filomena Leite - Avintes na margem esquerda do Douro, Avintes, Edição da Junta de Freguesia, 1993, pp. 32–33.
[21] Corpus Codicum Latinorum et Portugalensium, Biblioteca Pública Municipal do Porto, colecção 0, 11 – 58 (citado por AMARAL, Ana Filomena Leite – Op. Cit, p. 33).
GONÇALO MAIA MARQUES e LUÍS ALVES DOS REIS[1]
É para esta assembleia repleta de avintenses ilustres, filhos desta pequena pátria milenar e das suas gentes, que dirigimos as nossas primeiras palavras – de amizade e consideração, por um lado, e de humildade e recolhimento, por outro, pelas eventuais imprecisões toponímicas ou de outra ordem, que possam surgir no decurso da apresentação desta comunicação, naturais daqueles que, mau grado o gosto que alimentam por estes caminhos e pelo cheiro desta terra, não a conhecem na plenitude das suas faculdades.
O nosso objectivo é levar a todos aqueles que nos escutam alguns elementos culturais e sociais que caracterizavam a vida quotidiana da Avintes Medieval e, a partir destes elementos, tentar traçar um quadro aproximado do aspecto que a vila teria há cerca de mil anos atrás. Para isso, procuramos socorrer-nos de algumas fontes produzidas na época medieval, como por exemplo, as Inquirições Gerais de Afonso III, de 1258; as Vereações Municipais Portuenses de 1390-95 (o mais antigo Livro até agora descoberto) ou a documentação monástica e diocesana.
1. As Inquirições Gerais de Afonso III de 1258
As Inquirições Gerais de 1258, organizadas e publicadas no Reinado de D. Afonso III, são hoje um dos instrumentos mais preciosos ao trabalho dos medievistas portugueses, não só pela sua extraordinária riqueza patrimonial e documental, como também pelas inestimáveis referências que nos fornecem quanto à organização da propriedade, ao pagamento das rendas, ao perfil social dos caseiros e dos rendeiros, às idiossincrasias da povoação inquirida e, em última instância, à radiografia que o inquiridor vai traçando daquilo que lhe cumpre registar e fazer chegar ao monarca.
Relativamente à primeira fonte que foi objecto da nossa atenção (as Inquirições Gerais de Afonso III, de 1258) decidimos estabelecer, primeiramente, um levantamento das fórmulas usadas pelos inquiridores, para tentar retirar daquele inquérito concretizado a pedido do monarca o máximo de informação possível. Depois de consultado um trabalho da Revista de História Económica e Social relacionado com o estudo destas Inquirições Gerais como fonte para a investigação no domínio da História da Nobreza[2], concluímos, com os autores do trabalho, tratar-se do seguinte esquema:
1. Inquirição relativa à propriedade eclesiástica e direitos de padroado
- “cuja est ipsa ecclesia/monasterium” (a quem pertence esta Igreja / Mosteiro ?)
- “quis dedit ei ipsam ecclesiam vel quis presentavit eam” (como foi adquirida ?)
- “si Dominus Rex habet ibi aliquod jus vel debet habere” (quais os rendimentos devidos ao Monarca ?)
2. Levantamento da restante propriedade
- “unde habuit iilud/ea (casal/casalia) vel quomodo acquisierunt illud/ea” (onde se situam os casais e qual o modo como foram adquiridos)
- “in quo tempore comparavit illud/ea” (quando foram adquiridos ?)
- “si habet Dominus Rex aliquod Realengum”[3] (há algum realengo?)
Este conjunto de perguntas, sabiamente formuladas pelos inquiridores com o intuito de por cobro a alguns desmandos da aristocracia e do clero que, como sabemos, angariavam enormes domínios fundiários pela acumulação de mercês régias e de doações, constituindo, assim, um poderoso inimigo da centralização da máquina administrativa que o Bolonhês pretendia implementar, visavam determinar, em primeiro lugar, qual a propriedade reguenga existente no lugar – já que o monarca era, ainda na época, um senhor entre muitos outros e um terratenente – e, num segundo momento, qual a restante propriedade privilegiada (pertencente ao Clero, Ordens Religioso – Militares ou à Nobreza). Note-se que, desde o Reinado de Afonso II que a Coroa vinha publicando Leis de Desamortização sobre o Património Eclesiástico e Nobre, como forma de proteger os interesses monárquicos e de travar o perigo corporizado pela manta de retalhos do Portugal senhorial.
Em seguida, uma breve nota sobre o casal. Trata-se de uma pequena ou média propriedade agrária, normalmente ligada a uma Instituição com grande peso social (Diocese, Mosteiro, Nobreza ou Coroa) que dela colhe os seus rendimentos por via directa (por usufruto do próprio trabalho) ou indirecta (recrutando mão de obra alheia à instituição e angariada em estratos que lhe eram hierarquicamente inferiores) e característica, sobretudo, do trabalho minifundiário decorrente de uma agricultura de subsistência, muito praticada na época medieval.
Cumprido que está este primeiro passo, que se revestiu de duas facetas essenciais – a compreensão da engrenagem do texto da fonte e a sua articulação com as nossas investigações – torna-se necessário, como sabiamente diz o povo, chamar Avintes ao barulho e perceber como esta vila foi retratada e analisada na Inquirição que lhe foi feita.
De facto, a região em que nos encontramos estava integrada no Julgado de Gondomar e, como afirma Luís Krus[4] “duas freguesias situavam-se em parte, na margem sul do douro – Lebrinho e Avintes; os inquiridores não atravessam o rio quia isti homines morabuntur ultra Durium, “non moranbutur in termino nostre inquisitionis”[5]. Apesar do sentimento de pertença ao espaço que hoje classificamos de Julgado de Gondomar não ser, na época, uma realidade, a população sabia que o propósito da inquirição seria apurar, antes de mais, as fontes de rendimentos detidas pelo Senhor Rei (Dominus Rex) na vila.
Ora sabemos que Avintes fazia parte, em 1258, dos domínios directamente controlados pelo Rei, ou seja, era um realengo ou reguengo. Ao contrário do que se poderia pensar, este elemento não abona muito em favor de uma grande quantidade de informação directa, no entanto, propomo-nos compartilhar a informação aí contida e se possível enriquecê-la com outros trabalhos e com o sempre indispensável conhecimento do terreno.
A primeira informação que nos é transmitida pela fonte é o nome da pessoa que é inquirida: Johannes Sbjerii. Seria, muito provavelmente, o pároco da vila. Infelizmente, nada mais se sabe acerca desta personagem além do nome. Com efeito, desconhece-se a sua origem, a sua ordem sacerdotal, e a duração do seu serviço em prol da comunidade, bem como a obra que deixou.
Algo que sabemos de muito concreto é o montante das rendas que eram entregues anualmente ao monarca, não fosse o propósito da Inquirição, antes de mais, a avaliação dos rendimentos detidos pela coroa no território avintense.
Não é de estranhar que o primeiro género a ser mencionado seja o pão.
Como muito bem sublinhou o Dr. Francisco Sampaio num trabalho recentemente publicado pela Confraria da Broa de Avintes[6], este produto – que é, ao mesmo tempo, um ícone avintense – é já conhecido e apreciado pelos nossos antepassados medievais, a ponto de ser alvo de uma importante nota no Foral concedido por Afonso III a Gaia. Diz o decreto que “defendemos firmemente sob pena de desuso que nenhuma nova portagem não imponha às padeiras da cidade do Porto, nem às outras mulheres de trigo ou outro grão que em Terras de Santa Maria comprarem e com ele a cidade quiserem passar - prontamente ordenamos e mandamos que se essas padeiras de Gaia quiserem vender seu pão na cidade, ou as padeiras da cidade em Gaia, os almotacés daquele lugar não se oponham [...] Por outra maneira não sejam constrangidos os d´Avintes de aportarem nos lugares onde lhes aprouver (15 de Fevereiro de 1282 – El Rei)”[7]. Mais tarde, o filho do Bolonhês, D. Dinis, publicará um conjunto de directivas em que se estabelece que, doravante, a cozedura de pão de milho deverá ser feita em Avintes e Valongo, substituindo o Porto, por riscos elevados de incêndio no burgo intra muros.
Podemos afirmar que numa altura em que o país procurava a consolidação territorial, na sequência das campanhas da Reconquista, já a região de Avintes era produtora de pão em quantidades suficientes para prover ao sustento da sua população e muito provavelmente para comercializar. Quem ainda não consultou a fonte, interrogar-se-á qual a quantidade de pão que era entregue sob a forma de renda. Nada mais, nada menos que sete moios ou medidas. Estas medidas estariam, no entanto, longe de ser comuns a todo o reino, pois a fonte apressa-se a especificar-nos que essas medidas teriam em conta a medida que se designava de palaciana, o que nos poderá remeter para o centro da intriga política – o paço real. Não nos esqueçamos que, desde Afonso II, a coroa procurava instalar na cúria régia a plenitude do poder político, num esforço concertado de centralização, que seria prosseguido por Sancho II mas, sobretudo, por Afonso III. Não é preciso muito estudo ou poder de imaginação para concluirmos que estaríamos perante a maior medida aplicada ao pão. Nas entrelinhas podemos deduzir que, de facto, a região em questão seria rica em grão.
De seguida temos o segundo género, o vinho. Os nossos conhecimentos são diminutos quanto ao seu enquadramento no burgo avintense, sabemos, porém, que o peso acumulado por este produto no comércio externo da cidade do Porto era já nesta época relevante, sobretudo com a região do Garonne, e poderemos, assim, avançar a possibilidade de ser o realengo de Avintes um dos fornecedores da cidade, perante a existência de vinhas documentáveis nas Inquirições. Quem cruzava o Douro numa pequena embarcação a remos para levar pão, podia também levar uma barrica ou pipa de vinho. A fonte fala-nos que eram entregues ao Rei sete quartas de vinho. Mais à frente, a palavra quartas surge entre parêntesis com o termo sic, sinal que quem transcreveu o documento original desconhecia esta medida. Ficamos assim sem saber a quantos litros corresponderiam essas quartas. Só uma leitura de outras referências nos possibilitará, por comparação, deduzir a dimensão relativa desta renda.
Finalmente, o realengo rendia ainda ao soberano um último género alimentício. Neste caso seriam capões, num número total de sete. Mais uma vez, só uma comparação com outras realidades nos permite concluir se esta quantidade era significativa de grande produção avícola na região. No entanto, o facto de ser pago em capões leva-nos também a concluir que seria prática corrente enviar os frangos mais magros como pagamento de rendas. O capão será sempre um galo grande e como tal uma exigência que demonstra que se pretendia do realengo o melhor que este tinha para dar.
As Inquirições dão-nos ainda outras informações, que podem revelar-se de muito interesse para futuros estudos.
Em primeiro lugar, ficamos a saber que existe um indivíduo, que dá pelo nome de D. Egidium Velasci (Egídio Vasques, actualizando), que compra terrenos anexos ao reguengo. A pergunta impõe-se: Quem é D. Egidium ? Qual a razão do seu investimento em Avintes? O único dado descoberto que pode ser útil para um aprofundar do tema é o facto de D. Egidium possuir leiras e “quebrantis” em Valbom, sendo que paga todos os anos nove dinheiros de impostos régios. Uma leitura casual desta informação não revelará tudo o que nela se encobre… Primeiramente, devemos notar que D. Egidium possui terras dos dois lados do Douro, a nosso ver uma prova que os portugueses medievos não eram tão avessos à ideia de viagem como nos querem fazer crer.
Uma segunda leitura mostra-nos que nem só de géneros vivia o monarca. Não devia ser muita a moeda que circulava entre o comum dos mortais… mas é este o meio através do qual D. Egidium paga a sua contribuição fiscal, sinal de que tinha provavelmente trato com esta forma de pagamento e um estatuto social que lhe conferia um rendimento já aceitável. Aqui se abre uma série de perguntas, um das quais a compreensão do valor facial da moeda e da sua relação com o poder económico da população - o que representaria, nos nossos dias, nove dinheiros? Que tipo de encargo era este que, para D. Egidium, seria demasiado oneroso ou, por outro lado, era algo que não o afectava consideravelmente? Como podemos facilmente constatar são muito mais as questões do que as respostas, esperamos num futuro breve poder inverter esta tendência e compartilhar os resultados dos nossos trabalhos convosco.
A fonte revela-nos ainda o nome de mais três avintenses, Petrus Subjerii (Pedro), Menendus Ribeirus (Mendo Ribeiro) e Pelagius Petri (Paio Pedro). Estas são as três testemunhas que juram que a informação prestada pelo inquirido é verdadeira. Uma vez mais abrem-se portas para a investigação e aqui então o desequilíbrio entre as perguntas e as respostas é ainda maior. Não sabemos rigorosamente nada acerca destes homens, podendo unicamente opinar que não devemos excluir a possibilidade de haver uma grau de parentesco entre o inquirido e a primeira testemunha, uma vez que partilha do mesmo apelido. No entanto, mais à frente, voltaremos a este assunto, para vos dar conta de algumas possíveis leituras que se foram cruzando connosco no decorrer das nossas investigações.
2. As Vereações Portuenses de 1390-95
As referências à Vila de Avintes contidas no mais antigo Livro de Vereações do município Portuense, estão relacionadas com duas actas – concretamente, as nos 26 e 84.
No que se refere ao primeiro documento, datado de 4 de Março de 1390, onde se encontra transcrita uma fonte preciosa para o estudo, não só do burgo avintense medieval, como de toda a Terra de Gaia, a Carta do Privilégio de Gaia, que será confirmada pelo Rei D. Dinis, somos confrontados com uma referência ao comércio de peixe no Douro e à sua regulamentação – “e outrossy regateiro nom saya ao camjnho pera comprar as vendas que veerem nem enbragalas ataa que uaam ao açougue ou a feira hu quiserem hir saluo que as regateiras de gaya e de vila nova comprem unde quiserem comprar e outro sy que os moradores da alheira e da vyntes uaam per qual das ditas vilas quiserem […]”[8]. Trata-se de um texto precioso, que nos permite tirar algumas ilações. Senão vejamos:
Em primeiro lugar, dá para perceber que o peixe desempenhava, juntamente com o pão, a base da dieta dos avintenses, que pelas suas condições geográficas e morfológicas, tinham acesso a cada um destes bens em quantidades apreciáveis.
Em segundo lugar, os privilégios concedidos às regateiras de Avintes, atestam a sua importância no quadro regional e, mormente, no contexto da urbe portuense. Estas mulheres vendiam o produto da sua faina nas feiras do Porto e granjearam, até, algum prestígio junto dos restantes ofícios tradicionais da cidade.
Por último, o documento emitido pela chancelaria dionisina dá-nos conta de uma preocupação muito grande da coroa na prossecução da ordem jurídica do Julgado de Gaia e dos seus juízes e funcionários, o que interessa de sobremaneira aos avintenses medievais, já que a aplicação da justiça e a cobrança de alguns impostos está dependente das autoridades locais gaienses, numa época em que Avintes já teria passado da alçada do Julgado de Gondomar – em 1258, como se lembram – para a jurisdição de Gaia[9].
Outra das leituras que podemos fazer neste momento e perante um público que conta com alguns dos mais insignes membros da Confraria da Broa de Avintes é a de que o pão era já, para os avintenses, um sinal da sua própria matriz cultural, da sua identidade. Não seria de estranhar que já nesta época a deliciosa broa de Avintes fosse acompanhada da suculenta sardinha (ou mesmo de outro peixe) pescada nas imediações da Foz do Douro, já em pleno mar, ou trazida ao Porto por mercadores galegos, que por aqui passavam abundantemente como as Vereações atestam.
Relativamente à acta nº 84, datada de 12 de Março de 1393, onde a vereação discute a sempre problemática questão do abastecimento de bens de primeira necessidade à cidade, diz-se que “huma das cousas per que a dita çidade vynham os mantimentos de ffora parte sse era per rrazom dos pescados que dhy leuauam e por quanto a elles era dito que os bargeiros davyntes e ual boom e de canpanhaa e de guimaraes vendiam os savees lanpreas a mujtos rregatoens e rrecoueiros de fora da dita çidade”[10].
De facto, quer Avintes, quer as restantes vilas que se encontram na margem Sul do Rio Douro eram grandes consumidoras de pescado e o destino do seu trabalho e da sua faina era o grande mercado vizinho da época : o burgo medieval portuense.
3. Avintes perante a Revolução de 1383 - 85
Sendo um dos mais importantes conflitos da Idade Média Portuguesa e tendo afectado a maior parte do país, a Revolução de 1383 – 85, cuja raiz é o casamento de Dona Beatriz com João I de Castela, na sequência da assinatura do Tratado de Salvaterra de Magos entre as coroas portuguesa e castelhana, fez sentir a sua marca também na região avintense.
Segundo afirma o Professor Humberto Baquero Moreno, “a cidade, contudo, que desempenhou um papel fulcral e fundamental no apoio ao Mestre de Avis foi o Porto. Sem o seu concurso dificilmente D. João poderia dispor de forças que lhe permitissem desencadear acções militares sobre redutos apoiantes de Dona Beatriz. Mas a participação do Porto tem de ser encarada num todo de que fazem parte as áreas limítrofes de Monchique, Cedofeita, Massarelos, Vila Nova, São João da Foz, Matosinhos, Leça, Azurara, Gaia Maior, Gaia Pequena, Coimbrões, Lavadores, Mafamude e Maceira, cujas populações numa acção conjunta constituíram um baluarte de resistência ao monarca castelhano[11]”. Mais ainda – “não havendo a menor dúvida que os gaienses tomaram voz pelo Mestre de Avis, sem a mínima hesitação, face até à causa, teremos no entanto de observar que nem sempre se verificou uma consonância no seio das localidades. A circunstância de muitas delas, sobretudo na região do norte, haverem proclamado a sua adesão a João I de Castela, resultou fundamentalmente da aderência da Nobreza ao compromisso de Salvaterra de Magos”[12].
Ainda que não esteja documentada a presença de avintenses nas hostes do partido de Avis ou do partido castelhano, é possível que, pela proximidade do burgo portuense, a arraia miúda avintense manifestasse a sua simpatia pela causa do Mestre. Por outro lado, os grandes senhores – e Avintes foi, durante toda a Idade Média, um domínio senhorial (primeiro do Monarca e depois da Nobreza) – receando a perda dos seus privilégios perante a rebelião popular, teriam apoiado o partido de Dona Beatriz e de João I de Castela. O cenário, apesar da escassez de testemunhos directos, não seria muito diferente daquele que agora reconstituímos.
Importa registar que, após o apoio dado pelos vizinhos do Porto e pela burguesia duriense ao Mestre de Avis na sua investidura como Regedor e Defensor do Reino, o Arcebispo de Braga, que suportava o partido de Dona Beatriz, planeia tomar a cidade do porto, em Maio de 1384, em resposta ao triunfo da frota portuense no combate do Cerco de Lisboa[13]. Perante esta ameaça é certo o apoio dado pelos habitantes da margem vizinha do Douro, onde se contavam os habitantes de Avintes. Para além deste episódio de natureza militar, convém dizer nesta apresentação que, logo que foi aclamado Rei de Portugal pelas Cortes de Coimbra, em 1385, D. João I parte para o Porto, onde agradece o apoio que lhe fora prestado no decorrer da Guerra com Castela, tendo permanecido em terras gaienses – note-se que o Alcaide de Gaia, Aires Gonçalves de Figueiredo, é um dos comandantes da defesa desta vasta região contra as tropas do Arcebispo de Braga. Chega a Gaia em 24 de Abril de 1385 “procedendo de imediato à travessia do Douro[14]”. É bem possível que um dos pontos utilizado pelo novo monarca e pelos seus homens para o embarque da comitiva régia fosse o famoso embarcadouro da Praia do Areinho de Avintes – não só pela sua posição geográfica e pelas acessibilidades que proporcionava, como também pela relativa proximidade das docas portuenses.
4. Avintes e a Historiografia Medievística Portuguesa
A ideia original desta apresentação prendia-se, acima de tudo, com a análise das Inquirições de 1258, mas ao entrarmos em contacto com outras fontes e informações fomos alargando o âmbito da mesma, tornando-a assim num percurso medieval por Avintes. Como tiveram oportunidade de observar, também as Actas de Vereação do Porto mereceram a nossa atenção. Quando pensávamos ter já a totalidade da nossa apresentação pronta, surgiu-nos uma outra informação a qual pensamos que se enquadra perfeitamente no nosso percurso medievo avintense.
Entre a vasta obra de um dos maiores medievistas portugueses de sempre, encontramos O monaquismo Ibérico e Cluny. Referimo-nos, obviamente, a José Mattoso. Nesta obra surge uma referência a um mosteiro em Vila Nova, no século X, que se trata do Mosteiro de Santa Marinha[15]. Dito desta forma, rapidamente nos apressaríamos a colocar o mosteiro junto ao Rio Douro, na freguesia de Santa Marinha, cerca de Mafamude. Esta é, sem embargo, uma das hipóteses avançadas pelo autor da obra[16]. O professor Mattoso avança ainda uma outra possível localização em Crestuma, devido ao facto de haver nessas latitudes um mosteiro dedicado também a Santa Marinha. No entanto um dos documentos que se refere a esse mosteiro localiza-o na Vila de Avintes. O professor José Mattoso apressa-se a desfazer o alegado equívoco apontando as duas localizações alternativas que anteriormente mencionamos e considerando errada a sua localização em Avintes conforme tinha sido assumida por diversos autores[17].
Não querendo ser mais papistas do que o Papa, não seríamos tão ligeiros com a fonte que afirma ser a localização do dito mosteiro em Avintes. No entanto visto não possuirmos nenhuma prova que o certifique estamos dispostos a negociar … A informação é pertinente e também aqui há mais do que se pode concluir à primeira vista. Partamos do pressuposto que o mosteiro não fosse de facto em Avintes, e sim numa outra localização das avançadas pelo professor Mattoso, ou até numa outra ainda não proposta. Porque é que o documento diz que era em Avintes? A esta pergunta também não podemos responder com certezas, no entanto surgem-nos vários raciocínios que pensamos não serem de todo desprovidos de lógica e bom senso.
Ø O escrevente conheceria mal a região de Vila Nova e para a sul do Douro só conhecia Avintes (quiçá era admirador da Broa).
Ø Não querendo entrar numa verdadeira teoria da conspiração, o escrevente poderia ser natural de Avintes e, como tal, procurava, através deste documento, projectar a sua terra natal e a memória dos seus antepassados
Ø Uma outra hipótese, e a nosso ver também esta bastante plausível, deve-se ao facto de Avintes ter uma dimensão territorial bastante mais ampla que a considerada hodiernamente.
5. Uma Curiosidade
Uma surpresa ...
Vejamos um documento que pode vir a aguçar alguma curiosidade.
Num trabalho que apresenta um catálogo da documentação régia contida nos “Livros de Originais” do Cabido da Sé do Porto, Ivo Carneiro de Sousa e Maria Inês Amorim[18] apontam, no 77º documento que recolheram, datado de 21 de Abril de 1459, e emitido em Lisboa uma sentença de Afonso V em que o Africano decide que Fernão Vasques de Avintes não deve obrigar os caseiros do Cabido Portuense e de alguns Mosteiros da Diocese a darem-lhe geiras e outros pagamentos. Este tipo de conflitos, entre particulares, nobres e as autoridades canonicais, é comum durante toda a Idade Média, como documentam alguns trabalhos publicados por investigadores da especialidade[19].
Não poderá haver uma relação entre D. Egidium Velasci – Egídio Vasques (lembram-se ?) e este fidalgo da Casa do Africano, Fernão Vasques ? A pergunta – por muito ingénua que possa parecer – fica feita a todos aqueles que queiram ter a ousadia de lhe dar resposta … No entanto, ao longo das leituras que empreendemos no decurso das nossas investigações, sobretudo a de Avintes na margem esquerda do Douro da Dra. Ana Filomena Leite Amaral[20], concluímos que, nas Inquirições posteriores às de Afonso III, precisamente as d`El Rei D. Dinis de 1284–88, a freguesia de sam pedro d`avyntes surge como a que foy de dom gil vaasquez[21]. Ora, tal informação, permite-nos estabelecer três ideias :
Ø Avintes está ligada à Família Vasques, pelo menos desde 1258 (a primeira referência é a D. Egídio Vasques, um homem certamente possidente e respeitado, com terras na margem vizinha do Douro, em Valbom e a segunda é a D. Gil Vasques que, em 1288 já não é senhor de Avintes). Não poderemos estar perante o mesmo indivíduo (repare-se na similitude entre Egidium e Gil) ? Não nos esqueçamos que são transcorridos apenas 30 anos sobre a primeira referência às terras que este indivíduo detém em Avintes. A questão fica em aberto.
Ø A Família Vasques poderia muito bem ter sido agraciada com o Senhorio da Vila de Avintes, já que as terras eram reguengas e, portanto, mais facilmente transmissíveis à fidalguia por banda da coroa.
Ø Com o aparecimento da figura de Fernão Vasques de Avintes, neste último documento de 1459 - e é bem possível que ele esteja relacionado com este clã – concluímos que o domínio desta família bem se poderá ter estendido até aos alvores da modernidade, já que sendo Fernão Vasques fidalgo da casa do Rei Africano, é necessário que a família tivesse tradição de serviço à Coroa (como parece ser o caso) e um conjunto de laços familiares constituído, que lhe permitisse formar uma casa nobre.
6. Uma Conclusão ??
Normalmente, quando se fala da Avintes Medieval, há uma tendência natural para associar o nome de D. Gundesindo a esta milenar villa, tal como a sua famosa Carta de Doação, onde vai agraciar Avintes com algumas importantes propriedades e domínios. Ora, nem tudo que reluz é ouro e não podemos tomar esta pequena parte do todo pela realidade ampla e significativamente mais rica da Avintes da Idade Média.
Procuramos incorporar neste trabalho, algumas fontes que, geralmente, não são muito utilizadas neste tipo de apresentações e que consideramos de uma riqueza apreciável – como as Inquirições de Afonso III, as Actas de Vereação e, mesmo, alguma historiografia medievística da especialidade (onde salientamos os textos de José Mattoso e de Humberto Baquero Moreno).
Uma comunicação como esta – que, desde o princípio, e a avaliar pelo título, talvez seja demasiado ambiciosa (mas não será a ambição o motor do progresso científico ?) – está necessariamente inacabada e carece de uma cuidada complementaridade com os demais interlocutores e cultores da história local avintense.
Por último, pretendemos demonstrar que a existência de um fecundo diálogo entre amadores locais e académicos é mais do que um sonho ou uma miragem distante, uma utopia que pode ser alcançada e, até, convertida em realidade, onde o amador local se torna um académico e vice versa.
GONÇALO MAIA MARQUES [gmaiamarques@hotmail.com]
LUÍS ALVES DOS REIS [valadares_bishop@hotmail.com]
FONTES CONSULTADAS
Portugaliae Monumenta Historica – Inquisitiones – Inquirições Gerais de D. Afonso III, Segunda Alçada, Julgado de Gondomar.
VEREAÇOENS (anos de 1390 – 95) – edição de Artur de Magalhães BASTO, Porto, Edição da Câmara Municipal e do Gabinete de História da Cidade, s/d.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
AMARAL, Ana Filomena Leite - Avintes na margem esquerda do Douro, Avintes, Edição da Junta de Freguesia, 1993.
DUARTE, Luís Miguel e Amaral, Luís Carlos – Prazos do Século e Prazos de Deus : os aforamentos na Câmara e no Cabido da Sé do Porto no último quartel do século XIV, in Revista da Faculdade de Letras (História), vol. I, II Série, Porto, Edição da Faculdade de Letras, 1984, pp. 97 – 134.
KRUS, Luís – A Escrita e o Poder : as Inquirições de Afonso III, in Estudos Medievais, nº1, Porto, Edição do Centro de Estudos Humanísticos e da Secretaria de Estado da Cultura, 1981, pp. 59 – 79.
MATTOSO, José; KRUS, Luís e BETTENCOURT, Olga – As Inquirições de 1258 como fonte para o estudo da História da Nobreza – o Julgado de Aguiar de Sousa, in Revista de História Económica e Social, Edição da Livraria Sá da Costa, nº 9, 1982, pp. 17 – 74.
MATTOSO, José – O monaquismo Ibérico e Cluny, Lisboa, Círculo de Leitores, 2002.
MORENO, Humberto Baquero – O Norte na Revolução de 1383, separata da Revista Gaya, Gaia, Edição do Gabinete de História e Arqueologia da Câmara Municipal de Gaia, volume II, 1984.
– O Julgado de Gaia e os seus homens no Reinado de D. João I, separata da Revista Gaya, Gaia, Edição do Gabinete de História e Arqueologia da Câmara Municipal de Gaia, volume II, 1984.
SAMPAIO, Francisco – Oração de Sapiência, in A Broa de Avintes : o prestígio através dos tempos, Avintes, Edição da Confraria da Broa de Avintes, 2003, pp. 7 – 15.
SOUSA, Ivo Carneiro de e AMORIM, Maria Inês – Inventário de Documentação Régia nos Livros de Orihginais do Cartório do Cabido da Sé do Porto, Porto, Edição do Arquivo Distrital, 1981.
[1] Estudantes do curso de História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (3º Ano)
[2] MATTOSO, José; KRUS, Luís e BETTENCOURT, Olga – As Inquirições de 1258 como fonte para o estudo da História da Nobreza – o Julgado de Aguiar de Sousa, in Revista de História Económica e Social, Edição da Livraria Sá da Costa, nº 9, 1982, pp. 17 – 74.
[3] cf. Idem Ibidem, p. 22.
[4] cf. KRUS, Luís – A Escrita e o Poder : as Inquirições de Afonso III, in Estudos Medievais, nº1, Porto, Edição do Centro de Estudos Humanísticos e da Secretaria de Estado da Cultura, 1981, pp. 59 – 79.
[5] cf. Idem Ibidem, pp. 63 – 64.
[6] SAMPAIO, Francisco – Oração de Sapiência, in A Broa de Avintes : o prestígio através dos tempos, Avintes, Edição da Confraria da Broa de Avintes, 2003, pp. 7 – 15.
[7] Decreto de Afonso III de 15 de Fevereiro de 1282, citado por SAMPAIO, Francisco – Op. Cit, p. 8.
[8] VEREAÇOENS (anos de 1390 – 95), pp. 55 – 56.
[9] refira-se, por curiosidade, que nas Inquirições Dionisinas (1284–88), a paróquia de “Sam Pedro dAvintes” surge incluída no Julgado de Gaia. A explicação pode estar relacionada com dois aspectos – ou os fiscais de Afonso III se equivocaram na inclusão de Avintes nas terras de Gondomar, ou a vila transitou das mãos de um para outro julgado, no Reinado de D. Dinis. A mudança pode ter sido operada por motivos de natureza fiscal e de centralização administrativa.
[10] VEREAÇOENS (anos de 1390 – 95), p. 181.
[11] MORENO, Humberto Baquero – O Norte na Revolução de 1383, separata da Revista Gaya, Gaia, Edição do Gabinete de História e Arqueologia da Câmara Municipal de Gaia, volume II, 1984, pp. 13.
[12] MORENO, Humberto Baquero – O Julgado de Gaia e os seus homens no Reinado de D. João I, separata da Revista Gaya, Gaia, Edição do Gabinete de História e Arqueologia da Câmara Municipal de Gaia, volume II, 1984, pp. 161.
[13] Idem Ibidem, p. 13.
[14] Idem Ibidem, p. 14.
[15] MATTOSO, José – O monaquismo Ibérico e Cluny, Lisboa, Círculo de Leitores, 2002, pp. 53 – 54.
[16] Idem Ibidem, p. 53.
[17] Idem Ibidem, p. 54.
[18] SOUSA, Ivo Carneiro de e AMORIM, Maria Inês – Inventário de Documentação Régia nos Livros de Orihginais do Cartório do Cabido da Sé do Porto, Porto, Edição do Arquivo Distrital, 1981,p. 22.
[19] Veja-se o trabalho de Luís Miguel DUARTE e Luís Carlos Amaral – Prazos do Século e Prazos de Deus : os aforamentos na Câmara e no Cabido da Sé do Porto no último quartel do século XIV, in Revista da Faculdade de Letras (História), vol. I, II Série, Porto, Edição da Faculdade de Letras, 1984, pp. 97 – 134.
[20] AMARAL, Ana Filomena Leite - Avintes na margem esquerda do Douro, Avintes, Edição da Junta de Freguesia, 1993, pp. 32–33.
[21] Corpus Codicum Latinorum et Portugalensium, Biblioteca Pública Municipal do Porto, colecção 0, 11 – 58 (citado por AMARAL, Ana Filomena Leite – Op. Cit, p. 33).
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