segunda-feira, setembro 12, 2005

Nascimento da Audientis

















Aqui fica o discurso do Sr. Presidente deste projecto.


Avintes, 3 de Setembro de 2005
Salão Nobre do Clube Recreativo Avintense


Discurso de apresentação pública da Audientis – Centro de Documentação e Investigação em História Local pelo Presidente da Direcção da Audientis, José Vaz.


– Senhor Vice – Presidente da Assembleia-Geral da Audientis – Dr. Francisco Flores;

– Senhores Membros do Concelho Fiscal da Audientis, Dr. André Marques e Dr. Jorge Cardoso;

– Senhor Presidente da Assembleia-geral do Clube Recreativo Avintense, Dr. Dionísio Alves Pereira;

– Senhor Representante da Junta de Freguesia de Avintes, Dr. António Cardoso;

– Senhor Prof. Dr. Gonçalves Guimarães, em representação das Personalidades Académicas e Científicas que apoiam este projecto;

– Senhores Representantes das Colectividades Avintenses;

– Digníssima Imprensa Regional;

– Excelentíssimos convidados;

– Caríssimos colegas da Faculdade de Letras da Universidade do Porto;

– Minhas Senhoras e meus Senhores,


Há cerca de 3200 anos, no tempo de Ramsés II – faraó egípcio da XIX dinastia, alguém escreveu num túmulo estas palavras:
“Vivos que andais na terra, que amais a vida e odiais a morte, pronunciai o meu nome para que eu viva...”

O apelo desse desconhecido contém um dos desejos mais profundos de cada homem e de cada sociedade humana para que conservem na memória dos vivos a sua existência passada.

Conservar a memória dos homens é, como disse o sábio da historiografia portuguesa, José Mattoso, “recordar o passado é uma forma de lutar contra a morte.

É essa uma das muitas funções da História e o ofício do historiador é, sobretudo, realizar o diálogo entre esse passado e o nosso presente.

Diálogo imprescindível que, ao nível sítios, das pequenas pátrias, neste tempo de globalização, muito contribui para reforçar o sentido de pertença, para a preservar a memória, para desenvolver a consciência social e para promover a cidadania patrimonial.


Crentes no papel da História, como ciência do homem através dos tempos e dos espaços muitos de nós, nascidos e criados num sítio que respira história em cada pedra do caminho, em cada esquina de rua, em cada lugar, sentimos que é nosso dever preservar para transmitir o que os nossos ancestrais nos legaram.

Para isso, aqui estamos neste acto de nascimento, diante de vós, testemunhas do nosso primeiro som existencial.

Simbolicamente, escolhemos o Clube Recreativo Avintense porque foi aqui, neste venerando espaço, que a sociedade civil avintense ergueu há, 116 anos, a sua primeira experiência de associativismo laico e foi aqui que nasceu muita da história que Avintes conhece e cujo caso mais recente, é o da Festa da Broa, que hoje celebra a sua 18ª edição.

Embora a nossa acção seja para alargar ao Concelho de Gaia e à Região Norte, tomamos como designação deste projecto o topónimo Audientis que, segundo o sábio da historiografia portuguesa, Armando de Almeida Fernandes, na sua obra “Paróquias Suevas e Dioceses Visigóticas”, seria o nome que Avintes tinha na segunda metade do século VII, no reinado do rei visigótico Vamba, que reinou entre os anos 672 e 680.

Na hora do nascimento deste projecto, pensamos ser nossa obrigação evocar a memória dos primeiros historiadores de Avintes, que elegemos como nossos patronos e à sombra dos quais nos acolhemos como se de um manto protector se tratasse. São eles:

Teodósia de Magalhães, religiosa do Mosteiro de S. Bento da Avé Maria, no Porto, que nasceu no lugar do Paço, em Avintes, que viveu entre 1667 e 1712 e escreveu a obra histórica “A “Firme Esperança dos Sebastianistas”.

Inocêncio Osório Lopes Gondim, fundador do Clube Recreativo Avintense, 1º Presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia após a proclamação da República, que viveu entre 1863 e 1937 e escreveu a notável obra “Avintes e as suas Antiguidades”.

Avintes e muitas outras terras do concelho de Gaia são produtoras de significativo acervo documental e iconográfico.
Mas a insensibilidade de alguns e o desleixo de outros fazem com que muitos desses traços da vivência passada se percam e assim comprometam a compreensão histórica daqueles que nos hão-de suceder no devir histórico. Que o digam os que estudam as nossas colectividades.

Quando vão à procura dos documentos, na maioria dos casos, deparam-se com um deserto de fontes em colectividades recheadas de anos de vida e de história.

Queremos transformar esta situação.

Ao nível da produção historiográfica, com raras excepções, quase todos os trabalhos têm sido assinados por historiadores por amor a quem devemos, apesar de algumas limitações metodológicas e científicas, o conhecimento do passado das nossas comunidades.

Também, neste aspecto, queremos intervir com o nosso saber e com os nossos conhecimentos científicos.

Para atingir estes objectivos propomo-nos, a médio e a longo prazo:

– Criar um Centro de Documentação onde se guarde e conserve toda a documentação relativa à História de Avintes e seja destinado à investigação da sua História Local visando a elaboração e publicação de uma “Abientae Monumenta Historica”.

– Realizar “Jornadas de História das Pequenas Pátrias” onde se apresentem as novas investigações, descobertas ou interpretações históricas sobre a História Local e a Cidadania Patrimonial, extensivas às freguesias do Concelho de Gaia;

– Criar um Instituto de Ensino Superior (Universidade Sénior ou Permanente) onde as pessoas sem instrução formal universitária, em idade adulta, possam adquirir e/ou aprofundar conhecimentos de carácter universal.

– Organizar Visitas a Sítios com História e promover o turismo histórico.

– Organizar um Curso Livre de História Local nas Escolas EB-2/3.

– Ensinar a fazer Árvores Genealógicas;

– Prestar serviços de investigação de propriedades antigas;

– Prestar aconselhamento toponímico na atribuição dos nomes de ruas e de urbanizações:

– Defender o património histórico;

– Exportar esta experiência para todas as Terras de Gaia.

Pronto, nascemos e queremos proclamar “urbi et orbi” que estamos aqui e somos uma mais-valia científica para os amigos do saber, para as crianças, para as colectividades, para as autarquias e para as demais instituições económicas, sociais, cívicas e religiosas.

Com todos colaboraremos, se isso for do seu interesse, e com base em protocolos de cooperação mútua.

Nesta primeira fase, integram esta cooperativa cultural sem fins lucrativos, homens e mulheres com licentia docendi, outorgada por uma Universidade ou ainda em formação numa Instituição de Ensino Superior.

Com o tempo, integraremos os historiadores por amor, cronistas e personalidades que muito têm contribuído para o conhecimento e a preservação da História Local e Regional.

Abrir-nos-emos, também, a profissionais de outras áreas pois a universalidade do saber a isso o exige.

Assumimo-nos como uma instituição de natureza profissional e, doravante, insistiremos que quem deve tratar da História são aqueles que tem competência para isso, tal como se exige a um médico, a um arquitecto ou a um engenheiro.

Entendemos que chegou a hora de dar à História o que é dos historiadores.

Minhas senhoras e meus senhores, termino como comecei.

Sem a História, sem a memória, um homem, uma comunidade, um povo seriam privados da sua dimensão de humanidade.

Acrescentamos algumas fotos do evento, num post dedicado só à reportagem fotográfica. Desde já agradecemos ao nosso profissional Flávio Miranda.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Anúncios

Devido ao comentário compartilhado pelo Gonçalo Maia Marques, apercebi-me que faltava neste blog, um espaço onde fosse possível anunciar actividades relacionadas com a História, bem como outras que se julguem interessantes.
Assim sendo creio ser de todo justificável que o primeiro anúncio deste espaço, seja o já mencionado pelo Gonçalo num outro post.

1º Congresso Internacional sobre Casas Nobres
Novembro, em Arcos de Valdevez.
Para informações e inscrições:
http://www.cm-arcos-valdevez.pt/casanobre/

quinta-feira, agosto 04, 2005

Homenagem a José Pedro Machado

Filólogo e arabista. Formado em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa (1939), onde foi discípulo do arabista David Lopes, é também formado em Ciências Pedagógicas pela Universidade de Coimbra (1948). Assistente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1942-1943), funções que a seu pedido deixou de exercer, foi professor do ensino técnico a partir de 1949 e, desde antes mesmo de formado, membro da Comissão de Redacção do Vocabulário e do Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (1938-1940). A sua carreira de arabista inicia-se em 1939, com a publicação de Alguns Vocábulos de Origem Arábica, e reafirma-se logo no ano seguinte com a tese de licenciatura, Comentários a Alguns Arabismos do "Dicionário" de Nascentes. Como filólogo, o seu primeiro trabalho, Curiosidades Filológicas, data de 1940, seguindo-se-lhe, em 1942, O Português do Brasil. Historiador, bibliógrafo, publica os seus primeiros trabalhos nessas áreas respectivamente em 1940 e 1941. Como dicionarista, revelar-se-ia um dos maiores da língua portuguesa, logo quando subscreveu a 10ª edição, em 12 vols., 1948-1959, do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de António Morais Silva. Nesta obra, de que António Pedro seria a um tempo editor e mecenas, José Pedro Machado teve a colaboração de Augusto Moreno e Cardoso Júnior, mas é ao seu paciente labor que se deve um tal monumento ainda hoje inultrapassado. José Pedro Machado editou o Cancioneiro de Évora (1951) e, de colaboração com sua esposa, Elsa Paxeco, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional, em 8 vols. (1949-1964). Publicou ainda a Bibliografia de David Lopes (1967) e, em 3 vols., os Dispersos de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1969-1972). A sua bibliografia ultrapassa a centena de títulos, não contando com as mais de seis centenas de crónicas em jornais, revistas e boletins diversos.
O texto aqui colocado é uma cópia integral da notícia disponível em http://www.e-cultura.pt/DestaquesDisplay.aspx?ID=237 .
Desde já o nosso agradecimento ao Professor Doutor Carvalho Homem pelo atento aviso, ficando desde já prometido um post em homenagem a Angel Barrios García, com referência à sua produção académica.

quinta-feira, junho 23, 2005

Mesa Redonda sobre Bolonha - 22.06.2005

Na sequência da ausência generalizada dos alunos da licenciatura de História, na mesa redonda realizada na "nossa casa" em 22.06.2005, vimos por este meio colocar à disposição de eventuais interessados, a comunicação do nosso representante naquele dia. Esperamos que a temática em questão possa ser enriquecida com os vossos contríbutos.

O Licenciado em História : um condenado à docência ?

Falar de empregabilidade na área da História poderá parecer ousado ou, até, utópico, sobretudo numa atmosfera cultural marcada pela imagem mental do licenciado em História a desempenhar, quase exclusivamente, funções docentes. No entanto, não partilhamos desta ideia profusamente disseminada na nossa comunidade e acreditamos demasiado nas capacidades do licenciado em História – quando aplicado e dedicado ao seu curso – para lhe atribuir papel tão restritivo no panorama profissional português.
O nosso objectivo fundamental é o de sensibilizar todos os agentes universitários e a sociedade em geral, para o imenso manancial de possibilidades de trabalho e de investigação que a História abre em seu redor e cuja exploração – num país com o passado riquíssimo como o nosso – pode ser um factor de animação cultural do país e uma boa solução para combater a tão apregoada crise. Mais adiante propomos um plano de prioridades para o desenvolvimento da consciência histórica na vida cultural e no tecido empresarial português, que consideramos ser praticável, caso haja investimento público, mas, sobretudo, privado.

As competências do licenciado

Como é sabido, as competências tradicionalmente ligadas ao licenciado em História prendem-se, segundo a Reforma Curricular de 2001 do Ministério da Educação, com três domínios distintos :
- domínio da informação / utilização de fontes históricas
- compreensão histórica (nomeadamente temporalidade e espacialidade)
- comunicação em história

Para além destes, o documento desenvolve mais algumas características, aliás já conhecidas do grande público e esgrimidas, frequentemente, em debates da especialidade :
- capacidade invulgar de gestão da informação
- raciocínio metódico e organizado
- invulgar capacidade de compreensão da diferença
- cultura geral diversificada e grande dinamismo intelectual

Com todo o respeito que o documento ministerial nos merece, ousamos apontar mais alguns aspectos que nos parecem importantes na formação do licenciado em História e que, doravante, deverão ser tidos em conta, antes de mais, pela sociedade (dita do conhecimento) e, só depois, pelo mercado de trabalho. Este esforço será tanto melhor sucedido, quanto menor for o número de vagas para os cursos em História. Esta redução de vagas irá permitir, aliás, dois feitos que, de outra forma, dificilmente seriam atingidos – primeiramente, uma aposta na qualidade, que contemplará necessariamente a justa compensação do aluno aplicado e trabalhador (e põe termo à mercantilização do canudo, que abriu a licenciatura em História indiscriminadamente a alunos muitos deles pouco interessados na disciplina e muito mais sedentos de obterem o título de licenciado) e, por outro lado, um relativo controlo do número de licenciados e a garantia que o mercado de trabalho não ficará saturado. E esta, meus caros amigos, é uma condição essencial para a sustentabilidade do emprego em História e, mais ainda, para a dignificação da imagem externa da Universidade, que, actualmente, perante semelhante boom de vagas, pode ser encarada pela sociedade portuguesa como uma fábrica de canudos, o que em nada a dignifica.

Pensar a empregabilidade em História

Realizou-se recentemente na cidade de Coimbra o I Encontro Nacional de Estudantes de História[1] – dias 15 a 17 de Abril, em que esta e outras questões relacionadas com o futuro da História foram amplamente debatidas. Uma das ideias dominantes no painel relativo a saídas profissionais foi, necessariamente, a superação da tensão licenciado em história só pode ser professor.
Em primeiro lugar, há que colocar algumas perguntas a todos os licenciados e a todos os docentes – que competências julgam ter adquirido no decorrer da sua licenciatura e em que medida essas competências podem ser úteis à vida quotidiana ? a História é um mero saber teórico, ou tem alguma aplicabilidade na vida prática ? que espaço deve ser dado aos alunos interessados em colaborar em projectos de investigação alargados ?

Num segundo momento, será importante alertar a comunidade historiográfica e todos os cultores da História, quer façam dela sua forma de vida, ou não, para alternativas que se sobreponham à tradicional vocação forçada do licenciado – o ensino e o desempenho de funções docentes. Neste sentido, propomos um plano alargado de divulgação das potencialidades científicas e quotidianas da História, que passaremos a apresentar, e que mereceu aturada reflexão junto de alguns colegas que actualmente frequentam o 3º ano da Licenciatura nesta casa. É um plano ambicioso, mas que pensamos estar ao nosso alcance, tendo em consideração as potencialidades históricas naturais do nosso país, uma indústria futura a ter em conta para o desenvolvimento da economia nacional, tal como o turismo e o património histórico-cultural.

A História e as TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação)

Numa sociedade em rede, a informática desempenha um papel crucial na actualização e preservação do conhecimento, bem como na sua transmissão em formatos alargados e globais. Ora, como qualquer outra ciência, a História não deve menosprezar o papel divulgador e massificado das TIC e deve procurar fazer bom uso de computadores, leitores de DVD, projectores multimédia, etc ...
Pensamos ser imperioso apostar na criação de uma Associação Nacional de Historiadores Portugueses – já que uma Ordem assusta os mais temerários ... – que congregasse projectos comuns dos diversos cultores da História, contra elitismos e a noção de Historiadores de primeira ou de segunda. Esta associação – que contaria com um pagamento de quotas anual, por parte dos seus associados, para além de outros patrocínios de instituições privadas e do usufruto de descontos na Rede Portuguesa de Museus, etc ... mas igualmente com a distribuição de uma publicação que divulgasse as actividades da associação – criaria projectos para a realização de documentários e mesas redondas em estações de televisão de sinal aberto ou de cabo – como os 4 canais abertos, ou ainda (e sobretudo) o Canal de História, o Canal RTP Memória, entre outros, mais vocacionados para a componente temática da História.
Esta ideia podia impulsionar a criação de grupos de trabalho e mesmo de empresas dedicadas à produção de documentários, reunindo especialistas em audiovisuais, em efeitos especiais e, necessariamente, empregando licenciados em História que, com o domínio do seu saber científico especializado, fossem os consultores dos documentários e garantissem a sua fidedignidade. Temas de História de Portugal, Biografias Régias – porque não dirigidas pelos autores do Círculo de Leitores, reconhecidos académicos de elevado prestígio, Estudos de História Regional e Local, etc ... Este poderia ser um primeiro e importante passo.

Mas falar das TIC, é não esquecer o domínio avassalador exercido pela Internet nos nossos dias e o papel que Historiadores e divulgadores da História têm na criação de páginas tão consultadas e badaladas como o excelente Portal da História[2], sites pessoais e institucionais como o da Academia Portuguesa de História[3], das diversas Faculdades de Letras e respectivos Institutos e Departamentos de História. A futura Associação dos Historiadores Portugueses deveria, entre outras responsabilidades, criar um site que colocasse toda a comunidade histórica e historiográfica em rede, promovendo um debate alargado de todos os agentes produtores e cultores da História, informações pessoais e curriculum`s vitae de cada um dos seus membros, com indicação dos interesses pessoais de investigação, etc ... No fundo, colocar a História em rede com a sociedade.

Mas não basta usar a Internet e a Televisão. Não podemos excluir a papel charneiro que os programadores informáticos, quando aliados a esta causa, poderão desempenhar na dinamização de software informativo e pedagógico, com a chancela de garantia dos Historiadores devidamente creditados para o efeito. No fundo e utilizando uma expressão nossa familiar – um plano tecnológico na divulgação da História de Portugal. Esta intenção tem por objectivo evitar que todo e qualquer pseudo intelectual ou pseudo comentador possa tomar o lugar de um Historiador na análise de temas históricos, tal como nós Historiadores não deveremos opinar impunemente sobre matemática ou arquitectura ...
Não poderá escapar à comunidade científica e aos amantes da História o sucesso conseguido pelo primeiro jogo de computador criado por Portugueses sobre História Portuguesa – refiro-me ao produto Portugal 1111 – a Conquista de Soure, dinamizado por Professores da Universidade de Coimbra e por técnicos informáticos nacionais[4]. Quem nos garante que igual façanha não possa ser repetida ? Só se não for tentada ...
A História e a Indústria Editorial

A História nunca passa de moda e, contrariamente à maioria das ciências físicas, tem ocupado um lugar permanente no decurso da evolução intelectual da Humanidade. Ora, esta ideia de que a História está sempre na moda, encaixa-se perfeitamente no sucesso que Romances Históricos, obras de divulgação e obras de grande fôlego têm conhecido entre nós. Será preciso recordar o sucesso imenso de obras como a História dos Concelhos e Freguesias de Portugal, publicada com um jornal nacional de grande tiragem ? ou das sucessivas Histórias de Portugal publicadas entre nós ? ou das Biografias Régias publicadas pelo Círculo de Leitores ? este apelo do mercado deve fazer qualquer profissional de História empenhar-se na sua disciplina e é um factor de estímulo para apresentar ideias e projectos para novos domínios de análise, senão vejamos :

- a História Empresarial : não faltam, certamente, empresas (grandes, pequenas ou médias) interessadas no estudo das suas origens e no conhecimento das estratégias que garantiram o seu sucesso
- a História Local : é nossa convicção que cada Autarquia Local deve ter nos seus quadros pelo menos um profissional de História, que dinamize o estudo das tradições locais e do património histórico e cultural
- Projectos de tradução de grandes clássicos da Literatura e da Historiografia : que implicaria a mobilização dos nossos colegas de Línguas e Literaturas Modernas e da História – aliando o conhecimento do passado e do autor às técnicas de tradução (e interesse das editorias não faltaria certamente)

No entanto, será importante sublinhar junto da maioria dos colegas, que este tipo de projectos de trabalho pode não significar emprego, mas sim trabalho. E, neste sentido, afiguram-se dois caminhos possíveis : por um lado, numa óptica de freelancing, o licenciado pode apresentar projectos a mais que uma editora, ou então, simplesmente, como qualquer trabalhador vinculado, trabalhar permanentemente numa dada empresa – um privilégio de poucos, infelizmente – e ousar pensar numa carreira.



O Historiador : um funcionário público ?

Outro anátema mental interessante, está relacionado com a ideia de que o Historiador é um funcionário público. Não nos parece inteiramente verdadeira. O Historiador poderá perfeitamente ser encarado como um qualquer funcionário liberal, contratado pelos seus serviços pelo mundo empresarial ou por qualquer particular interessado no estudo da sua figura, percurso, ou da sua família.
Estamos certos que, caso este princípio seja bem aceite pela sociedade, não tardará a criação de empresas de Historiadores, que oferecem a qualquer instituição os seus préstimos. E o que dizer das empresas de recriação histórica, recentemente reunidas em congresso em Óbidos ? será de menosprezar o seu papel na dinamização da História ? não nos parece ...

Porque não pensar a História como um métier, como propõe Marc Bloch na sua Introdução à História ou Métier d`Historien ? Este desafio de Bloch, já inovador na década de 30 do século passado, permite pensar a História não apenas como um saber profissional e profissionalizante, mas como uma maneira de ser e de estar na vida.

A História e a Sociedade

Outro dos nossos projectos é a criação de escolas dedicadas aos estudos históricos abertas a todos os portugueses ou estrangeiros que, sem excepção, se queiram dedicar à arte de clio no melhor das suas capacidades e num verdadeiro acto de amor pelo saber. Uma das propostas que nos parece nada descabida é a criação de Cursos Livres de História de Portugal nos nossos Lares de Terceira Idade, sendo certo que a adesão seria, no mínimo, interessante. Os Idosos são sensíveis, como ninguém, aos assuntos históricos e a sua larga experiência de vida será proveitosa. Estamos certos que as instituições públicas e privadas de solidariedade social não excluiriam esta proposta, que aliás lhes traria maiores dividendos e maior procura dos seus serviços. Não basta apregoar como bandeira da contemporaneidade a aprendizagem ao longo da vida se a sua aplicação for um fiasco.
Para além da aposta na chamada Terceira Idade, propomos a criação de empresas de gestão turística para empreendimentos de turismo rural e de habitação, ou para planeamento de visitas e viagens, que empregaria colegas nossos como guias e como animadores turísticos, outra das portas que se abre à economia nacional e que deve ser uma aposta para o século XXI.

O Processo de Bolonha e a licenciatura em História

No entanto – e porque este debate versa sobretudo a recepção do Processo de Bolonha nas nossas Universidades e, mais concretamente, nesta nossa casa – como equacionar novas saídas profissionais partindo de um plano de estudos que futuramente será bietápico – com um ciclo de estudos graduados e outro de estudos pós-graduados (correspondente a um ciclo de Mestrado e a outro de Doutoramento), sendo a licenciatura já não apenas um fim de formação, mas um mero ponto intermediário articulado com a necessidade de formação ao longo da vida ? Ora, esta Reforma vai, inevitavelmente, exigir muito mais de professores e de alunos. Em primeiro lugar, porque a formação graduada da Licenciatura corresponderá a 3 anos curriculares, o que obriga o Professor a fazer opções programáticas e a actualizar constantemente as suas bibliografias e leituras. Por outro lado, o aluno deverá compreender que deve investir em consulta bibliográfica, em investigação historiográfica e no trabalho com fontes documentais, devendo o discente estar sensibilizado que há muito mais vida para lá dos apontamentos das aulas ...

Uma licenciatura em História de 3 anos leva-nos a pensar profundamente a actual estrutura curricular semestral e a possibilidade – se é que não mesmo a inevitabilidade – de voltar a colocar algumas das principais cadeiras em módulos anuais, conciliados com o actual sistema semestral (investindo num tratamento mais exaustivo das vertentes política, económica e social geral, sem esquecer a componente História de Portugal e, na nossa opinião, uma aposta na História da Arte, que deverá ser uma ferramenta a ter em conta). Por outro lado, tendo presente a estrutura tradicional, que opta por tratar disciplinas como a Pré História, as Civilizações Pré-Clássicas e Clássicas no 1º Ano, a Idade Média no 2º Ano, a Idade Moderna no 3º e a Época Contemporânea no 4º, das duas uma : ou se opta pela fusão de algumas disciplinas numa cadeira mais abrangente, ou então, um tratamento mais superficial, deixando pistas para o ciclo pós-graduado. Ocorre-nos, por exemplo, criar um super primeiro ano, juntando num mesmo semestre as disciplinas de Pré História, Pré Clássicas e Clássicas e no 2º Semestre a iniciação à História Medieval, que se prolongaria para o 2º Ano, ou, ainda, a possibilidade de refundir, como anteriormente, a História Moderna e Contemporânea num mesmo ano lectivo, opção que suscitaria alguma animosidade mas que, estamos certos, poderia ser útil e profícua a uma melhor gestão do tempo.

Concluindo

Para concluir, gostaríamos de sensibilizar a comunidade para a iminência da aplicação entre nós do Processo de Bolonha, já que a maioria dos agentes universitários parece adormecido, ou no mínimo, anestesiado, perante o andamento natural do processo e a necessidade de operar mudanças profundas – e provavelmente fracturantes – no seio da Universidade Portuguesa, sobretudo no tocante aos hábitos de ensino, às licenças sabáticas de longa duração e à negligência no cuidado que deveria ser constante com a actualização dos programas e das bibliografias. Alguns destes passos, foram já tomados, de forma resoluta e decidida, pelos nossos colegas do Ensino Politécnico. Dir-me-ão que o próprio carácter do politécnico – mais ligado à vida prática e menos especulativo e reflexivo – poderá ter sido uma das razões. Talvez. Mas a gestão de todo o processo em antecipação – e não em reacção – e a realização de fóruns e mesas redondas alargadas também foi importante. Apesar da velha rivalidade entre Universidades e Politécnicos, saibamos aprender com quem já pensou (e pensou bem), o futuro do ensino superior em Portugal.
Esperamos que esta breve reflexão possa ter introduzido algumas pistas e tentativas de solução para os problemas com que se depara a nossa licenciatura e do papel dos estudos históricos na nossa sociedade, tendo presente as alterações trazidas pelo Processo de Bolonha, nomeadamente a noção de empregabilidade, um sistema de créditos global à escala europeia e a noção de mobilidade de recursos científicos, em verdadeira rede.

GONÇALO MAIA MARQUES
gmaiamarques@hotmail.com


[1] ver site www.uc.pt/eneh
[2] www.arqnet.pt
[3] www.aph.com.pt
[4] ver site www.portugal1111.com